Eu não sou daqueles economistas acadêmicos que acredita que os economistas devem saber tudo que aconteceu na história econômica para entender a economia contemporânea ou fazer previsões.
Acredito que as aulas de história econômica e história do pensamento econômico (HPE) funcionam mais como ilustrações do que qualquer outra coisa. Por exemplo, eu posso explicar o princípio das vantagens comparativas sem mencionar David Ricardo, tecidos ou vinhos. Obviamente, ele deve receber o crédito e é aí que entra a contextualização histórica. Mas, creio que isso possa ser feito rapidamente na aula de microeconomia, ou de economia internacional.
Portanto, quando vejo os erros econômicos do passado serem cometidos na atualidade não acredito que seja porque as pessoas não conhecem todos os erros econômicos cometidos na história. Em geral, os erros da atualidade possuem três possíveis explicações: (a) não conhecem os princípios econômicos básicos, (b) são movidos por interesses políticos, ou (c) ambos.
Vamos aos fatos. Em poucos meses o governo brasileiro fez uso de diversas políticas com a finalidade de proteger a indústria nacional, em particular, a indústria de transformação. As medidas envolvem aumento de carga tributária sobre produtos originários de outros países, revogação de acordos comerciais, elevação de impostos sobre operações financeiras e interferência no mercado cambial.
Empresas estrangeiras do setor automotivo, por exemplo, foram incentivadas a abrir fábricas no Brasil para poderem desfrutar de menores impostos. Resultando em anúncios como o da foto abaixo:
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| Anúncio da Hyundai em uma revista. |
Este tipo de política é chamada de protecionismo, e a história econômica está recheada de exemplos de reinados e estados que tentaram usar desta política para prosperar economicamente. Infelizmente elas foram ineficazes, pois violam alguns princípios econômicos básicos e têm diversas conseqüências*.
Elevar o preço de produtos importados por meio de taxas, tarifas, impostos ou cotas tem como efeito a mudança dos preços relativos e a por conseqüência mudanças no padrão de consumo e produção de bens e serviços.
Vamos ver um exemplo com um CD.
Suponha que antes dos impostos um CD americano chegava aqui ao preço de R$ 23,00 enquanto o preço do nacional era R$ 25,00. Se com a elevação dos tributos o CD importado passar a custar R$ 27,00, o CD nacional passa a ser o mais barato. Nada mais justo do que elevar o preço para R$ 26,00 (ou, quem sabe, R$ 26,99, certo?). Ou seja, a proteção alcança seu objetivo, diminuir o consumo do produto importado e elevar o consumo do produto nacional.
Mas notem que neste processo alguém mais foi afetado. O consumidor que antes pagava R$ 23,00 e agora para R$ 26,00. Não só isso. Antes, esses R$ 3,00 de diferença poderiam ser consumidos em outros produtos, como por exemplo, um queijo nacional. Deste modo, não só o consumidor nacional perdeu R$ 3,00, mas também a agroindústria nacional deixou de vender R$ 3,00.
Esta é apenas uma das conseqüências do protecionismo. Ele desloca a alocação dos recursos, pois muda os preços relativos. Neste processo, consumidores e produtores dos setores que não foram afetados pelos impostos são afetados.
*: Este post é o primeiro de uma série sobre as conseqüências do protecionismo. Sim, eu sei que pelo o novo acordo ortográfico eu posso escrever "consequências", mas até o fim de 2012 ele é facultativo.