O que muda na economia com as novas regras da poupança? Essa foi a pergunta que me fizeram com mais freqüência essa semana. Segue abaixo a minha primeira impressão sobre o tema.
1) A mudança era necessária. Na verdade, eu já havia postado sobre o assunto aqui no blog em 2009 e 2010. Os links estão AQUI e AQUI.
2) Não sei se a regra é muito clara. Do ponto de vista jurídico, não poderiam alterar a remuneração dos depósitos já feitos. Logo, a regra tinha que ser para os novos depósitos. A questão é que poderiam ter atrelado a remuneração a 70% da SELIC mesmo quando a SELIC estivesse acima dos 8,5%. Assim, quando a SELIC subisse as pessoas poupariam mais e o efeito do aumento da SELIC sobre a economia seria maior (na margem). A regra também ficaria mais simples, mais linear.
3) Eu acho a poupança um pouco esdrúxula. Você coloca o dinheiro lá e fica sem receber remuneração por 30 dias. Mas, sei lá. As pessoas gostam de usar.
4) Uma forma alternativa seria cobrar imposto de renda sobre o rendimento da poupança. Mas, o custo político seria muito grande. Isso já foi discutido antes, AQUI.
Quais os efeitos da medida?
Bem, o primeiro deles é o aumento do consumo. Como a remuneração da poupança é menor, a teoria econômica indica que as pessoas vão poupar menos e consumir mais. Ao mesmo tempo, isso vai possibilitar a queda da SELIC, reduzindo os juros, o que também vai na direção de mais consumo.
Um dos setores que pode se beneficiar mais com essa mudança é o setor de habitação. A primeira intuição seria dizer que como os recursos da poupança serão menores, menos dinheiro seria destinado à habitação. Mas, deve ocorrer justamente o contrário. Com a queda dos juros, o setor de imóveis deve continuar sua trajetória de crescimento.
Junte a isso a política de redução de juros dos bancos públicos e está a armada a farra do crédito. O BB e outros bancos já estão enchendo seus balanços com provisões para créditos duvidosos. Ou seja, esperam um aumento da inadimplência. Mesmo que neguem. A tendência já era essa. Os dados do SERASA EXPERIAN já mostram isso. A inadimplência entre os consumidores foi 19% maior em Março de 2012 do que em 2011.
A minha leitura é que se a economia mundial não desacelerar muito (e há muita incerteza com relação a isto) podemos ter um cenário de inflação ainda no final de 2012. Antes da medida, o mercado precificava uma inflação (do IPCA) em torno de 5,12% e 5,53% em 2013 (AQUI).
Vamos ver o que o relatório dirá amanhã...





5 comentários:
Sobre o gatilho para a remuneração da poupança, tinha a mesma impressão que vc: uma regra única de remuneração da poupança daria maior poder à política monetária e tornaria as regras mais simples. Perguntei para um pessoal que entende bem mais do que eu sobre o assunto, e a resposta foi a seguinte: a mudança foi feita para permitir quedas da Selic, e ponto final.
Para a regra ser linear, como pensamos, muitas outras leis precisariam ser alteradas no mercado imobiliário para isto funcionar. O motivo é o seguinte: cerca de 70% dos recursos que financiam contratos imobiliários são da poupança. Se a regra fosse linear, aumentos da Selic poderiam gerar problemas de caixa nos bancos, já que estes captariam a taxas flutuantes e, sobre os contratos já existentes (alguns de até 30 anos), receberiam a taxas fixas e mais baixas. Ou seja, são os contratos imobiliários já existentes que impediram a mudança para uma regra mais simples.
Abraços!
"Eu acho a poupança um pouco esdrúxula".
Acho que eu não poderia concordar mais!
Também não entendi porque a regra vale apenas "para baixo". Cria confusão e, como você colocou muito bem, perde a oportunidade de tornar a política monetária mais eficiente.
A poupança já não rendia lá grandes coisas...
O ponto 2 ficou meio confuso... não sei o que você quis dizer com o "tinha de ser", mas a regra é de fato somente para depósitos novos.
Quanto a questão de aumentar a efetividade da SELIC atrelando ela à poupança, isso não é necessariamente verdade. Você tem dois efeitos, o substituição e o renda.
Quando a remuneração da poupança sobre, o efeito substituição atua no sentido da redução do consumo hoje (troca do consumo presente por consumo futuro). Todavia, o efeito renda atua no sentido do aumento do consumo hoje (já que sei que vou ser mais rico no futuro, gasto mais no presente). Saber qual prevalece seria mais uma questão empírica, e não sei se isso já foi feito aqui no Brasil
Abs
Analisereal,
em geral quando os juros sobem o consumo e o investimento caem. O seu ponto é uma possibilidade teórica possivel na micro, mas improvável na macro.
Você precisaria de agente heterogeneos e com diferentes niveis de endividamento e poupanca.
Empiricamente imagino que no nível agregado seja impossível.
Em geral, juros mais altos diminuem o consumo e o investimento agregado.
Abs
Cristiano
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