Ads 468x60px

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

O Banco Central e o IPCA 2011


O IBGE acaba de divulgar a inflação acumulada em 2011 calculada pelo IPCA (AQUI). O valor ficou em exatos 6,50%. Nem um centésimo a mais, nem um centésimo a menos.

O comentário do residente Alexandre Tombini já está no site do BC (AQUI). Ele escreve:

“A meta para a inflação foi cumprida em 2011 pelo oitavo ano consecutivo, nos termos do Decreto 3.088, de 21 de junho de 1999, que estabelece os parâmetros para o Regime de Metas no Brasil; e da Resolução 3.748, de 30 de junho de 2009, que fixa a meta para a inflação e seu intervalo de tolerância para o ano de 2011.”

Eu não vou discutir a idoneidade do IBGE. Além disso, do ponto de vista de resultado da política monetária passada e do poder de compra dos consumidores, 0,01% a mais ou 0,01% a menos não faria muita diferença.

O que podemos concluir sobre este número de 6,5%?

A conclusão é muito simples. A política monetária em 2011 se distanciou 2 p.p. do centro de sua meta. Isso significa um desvio de 44% do seu objetivo inicial. É como seu um aluno tivesse prometido ao pai tirar nota 8 no bimestre e chegasse em casa com uma nota 4.5. É muita diferença.

O Banco Central foi leniente com a inflação, pois conhecia a política fiscal, e já a conhece para 2012. Em suma, abriu mão de seu objetivo principal.

Isso tem algum efeito de curto e médio prazo?

No curto prazo, o poder de compra do consumidor se reduziu a uma taxa maior do que previamente programado. Além disso há o comprometimento da meta de 2012. Como bem já alertou o Alexandre Schwartsman (AQUI), se o BC tiver de fato errado a dose de juros em 2011 os efeitos se propagam até 2013.

E os efeitos de médio prazo? Bem, estes são muitos. O primeiro deles é a perda da credibilidade no trabalho do BC em buscar a meta para 2012. Uma possível leitura do resultado de 2011 é a de que o BC abandonou a busca pela meta de 4,5% e agora trabalha com o objetivo de ficar abaixo de 6,5%. O que constituem objetivos bem distintos.

O segundo é o efeito dos preços em si. Uma inflação de 6,5% afeta não só os preços, mas põe pressões sobre os salários pagos pelas as empresas e governos. A política de reajuste do salário mínimo, por exemplo, é uma delas.

Um terceiro efeito é a eventual volta da indexação. Em um ambiente de inflação mais elevada, muitos contratos podem passar a prever um reajuste automático (o que já ocorre com os aluguéis, por exemplo, que usam o IGP-M da FGV). A volta da indexação de forma mais generalizada na economia seria um problema a mais para o sistema de metas de inflação no médio/longo prazo.

Por fim, há o efeito da mudança de política sobre as expectativas. Se de fato o BC agora persegue uma inflação menor ou igual a 6,5%, o risco de uma inflação maior do que isto é grande (por mais contraditório que possa parecer). Isso porque os agentes econômicos vão entender a mudança de política e ajustas as expectativas. Neste cenário, qualquer choque de oferta (chuvas no sudeste, seca no sul do aís, aumento do preço do petróleo, etc) podem empurrar a inflação um ou dois décimos para cima.

Neste eventual cenário, o remédio (taxa de juros) terá que ser receitado em doses cavalares.


4 comentários:

Ibargoyen disse...

Um economista de carreira contrariando os prognósticos catastróficos do mercado. Isso sim seria interessante de ler. Meter o pau no governo e secar o país, eu escuto todo dia na cbn, vejo na globo e leio no valor... Abraço.

Ibargoyen disse...

Alguma coisa têm de bom o nosso país. Recomendo a leitura da entrevista do diretor da Fgv Yoshiaki Nakano na última Carta Capital de 2011.

Cristiano M. Costa disse...

Bruno,

Na verdade, o cenário não é catastrófico não. O país vai ter uma inflação de 6% e um crescimento de 3%.

Um resultado na verdade bem razoável. Se comparado ao de outras economias em crise.

Mas é um cenário em que a moeda perde valor.

Responde pra aí qual foi a última vez que tu usaste uma moeda de 1 centavo? Ou que alguém te deu de troco?

Pois é, ela saiu de circulação.

A questão toda é: será que não poderíamos estar crescendo 4% com uma inflação de 2%?

Abs
Cristiano

PS: Talvez ler um economista contrariando o mercado fosse mais interessante. Mas será que estaria retratando a realidade?

Dawran Numida disse...

A percepção que se tem, é de uma elevada confiança no desempenho da economia, em 2012, por parte do mercado.
Mesmo a inflação acima do PIB em 2011, não é considerado algo catastrófico pelo mercado, ao que se lê e ouve. Em outros tempos, sim, o mundo estaria desabando e isso sim, é que é interessante.
Ademais, se as previsões do mercado não são boas, quem deve contrariá-las é o governo.
O cidadão comum, que paga as contas todas, via impostos e inflação, precisa ser informado do que significa baixo crescimento com inflação. Tanto ocorrido em 2011, como se tal aspecto poderá ocorrer também em 2012.