Entre os cantos de guerra que ecoam nos campi federais um deles se destaca. É o grito apaixonado pela "universidade pública, gratuita e de qualidade".
Para mim, a maior falácia desta tríade acadêmica é a gratuidade. Obviamente, o sistema público de ensino superior não é gratuito. Ele custa, e custa muito aos cofres públicos. Não só diretamente, mas também em termos de custo de oportunidade. Afinal, seria muito mais inteligente investir grande parte dessa verba no ensino primário e secundário (ver resultado do PISA).
Mas, digamos que eu queira fazer um cálculo individualista, totalmente maximizador da utilidade individual. Eis que então faz sentido termos a gratuidade para mim, certo?
Bem, é aí que o cálculo pode falhar. Vamos imaginar duas universidades.
Suponha que exista uma universidade privada que ofereça o curso que eu desejo e de uma certa qualidade. Digamos que ao concluir esse curso eu vou receber em média o valor Y a cada ano após ter me formado, por exatos 31 anos. Obviamente, esse curso tem um preço. Digamos que seja X por ano. O curso tem duração de 4 anos.
Portanto, o valor financeiro da minha educação é a soma desses valores Y durante 31 anos descontados a uma taxa r, a partir da data de formatura, menos o valor X a cada ano, também descontado.
Ou seja,
Para facilitar, vamos dar números fictícios. Assuma que a taxa de juros real seja 6% ao ano (Selic - Inflação), a faculdade custe 12,000 por ano (cerca de 1,000 por mês) e a renda Y seja 41,000 por ano (algo em torno de 3,000 por mês + férias e décimo terceiro). Parece razoável, não?
O valor presente desses desembolsos e recebimento seria seria R$ 435.424,15.
Agora imagine que você tenha como outra opção a universidade pública, gratuita e de mesma qualidade que a privada. Neste caso X é igual a zero e se tudo fosse exatamente igual à universidade privada, incluindo o seu empenho nos estudos, a qualidade do professor, a dificuldade das provas e suas chances no mercado de trabalho, então o valor presente seria maior.
De fato seria exatamente R$ 479.500,30.
Legal, não é mesmo? Mas, infelizmente não é bem assim. Esta é a grande falácia. Apresento a vocês um potencial cenário.
Greve de funcionários e professores por 1 semestre
Assuma que ocorreu uma greve na faculdade que se extendeu por cerca de 1 semestre. Neste período não houveram aulas e você acabou atrasando a sua entrada no mercado de trabalho. Juntando a greve, com o período de reposição e tudo mais você acabou atrasando seu perfil de salários em 1 ano (isso aconteceu comigo de fato). Além disso, imagine que essa greve tenha afetado a qualidade do seu curso, afinal você perdeu o ritmo, deixou de ter acesso à biblioteca, etc. Imagine que essa qualidade tenha caído muito pouco na verdade. Suponha que agora, ao invés de ir ao mercado de trabalho e ganhar 41.000 você vai ganhar 39.500 no ano.
Nesta situação, o valor presente passa a ser R$ 430.669,90. Ou seja, menor do que seria se você tivesse ido para a universidade privada.
Podemos fazer uma conta parecida, mas afetando somente a qualidade.
Qual a diferença de qualidade da universidade pública para a privada para não valer a pena estudar na pública?
A resposta é simples: se o seu salário no mercado de trabalho for R$ 37,231.24 ou menor. Ou seja, se o salário de um formando em universidade pública for 90,8% do salário de quem se formar na escola privada. Neste caso o valor presente será exatamente o mesmo: R$ 435.424,15.
Portanto, se a qualidade de uma universidade privada for 10% maior que a pública, em termos de salários recebidos após a formatura e tudo mais constante, a universidade gratuita se torna uma mera falácia econômica.
PS: Obviamente que os meus cálculos dependem da taxa de juros, número de anos trabalhando e do custo da universidade privada. Por exemplo, os custos e rendas futuras de um curso de medicina é diferente de um curso de economia. Mas os valores supostos são razoáveis.
PS: Sim, eu sei que existem restrições de crédito. Vamos retomar esse tema no futuro.