O assunto da semana nos jornais e sites de economia é a crise política americana. Sim, porque a crise não é econômica e sim política. Se os EUA venderem novos títulos o mercado compra na hora, e pode se endividar ainda bastante.
Acontece que a sociedade americana possui instituições que representam os seus interesses. É a boa e velha democracia. Quando não há acordo, pagam-se as conseqüências.
A pergunta no momento é se haverá um acordo e se o teto nominal previsto em lei (algo tão imbecil quanto a regra do salário mínimo criada no Brasil) será elevado. Mas, pelo o que se desenha no noticiário americano, o acordo pode não sair até o dia 2 de Agosto, provável data em que os EUA não terão caixa para arcar com a rolagem da dívida (ou prover serviços/bens públicos).
Vamos trabalhar nesse cenário, já que o alternativo é um acordo em que a economia segue o seu caminho atual.
Estima-se que os EUA tenham 80 bilhões de despesas e apenas 60% desse valor em caixa para o mês de Agosto. Então eu pergunto, quais as eventuais conseqüências de um calote temporário por parte dos EUA?
São duas possibilidades. A primeira é o governo cancelar o pagamento de serviços e bens. Ou seja, não pagar funcionários públicos e empresas contratadas por ele. Neste caso, os juros continuariam sendo pagos por alguns dias e a maior parte do efeito seria sentindo pelas pessoas diretamente dependentes do governo.
Persistindo sem acordo, em alguns dias ou semanas, não haveria outra possibilidade. O fim do pagamento dos juros seria inevitável.
O primeiro impacto seria a elevação das taxas de juros. Qualquer pessoa que precisar de um empréstimo (tal qual o governo) precisará pagar mais juros. Todas as taxas se baseiam na taxa dos Treasuries.
Com taxas de juros em alta, as bolsas podem novamente despencar e novamente a população americana e investidores estrangeiros perderá riqueza e o mesmo ciclo de crise que foi visto 3 anos atrás se repetiria. Combinado com a fragilidade das instituições financeiras e os efeitos do não pagamento dos juros aos credores, um cenário catastrófico poderia acontecer. China, Japão, Reino Unido, Países Exportadores de Petróleo e Brasil estão entre os maiores credores dos títulos americanos (
AQUI).
Neste cenário, os efeitos para o Brasil seriam muito incertos. Minha lógica diz que o dólar perderia ainda mais valor (valorizando o Real). As commodities preciosas (ouro, prata, etc.) tenderiam a subir ainda mais. Portanto, eu esperaria um cenário de real forte, inflação no mesmo nível e juros incertos no Brasil. Incertos porque eles podem ter que acompanhar os americanos, mas não necessariamente, dependendo do efeito da valorização do Real na inflação e commodities agrícolas e energéticas. Ao mesmo tempo poderia haver uma repentina fuga de capitais em direção a outro país. Neste caso, seria um cenário recessivo e de juros altos.
A grande incerteza é: em que sentido o dinheiro irá se deslocar? Quando os EUA deixam de ser o porto seguro, onde os investidores passam a colocar o seu dinheiro para obter a chamada taxa livre de risco? Onde os fundos de pensão irão investir? Algum palpite?
PS: meu palpite de fato é que o acordo sai. Se não até dia 2, mas um ou dois dias depois. Mas é bom fazer esse exercício de previsão.