Nenhum assunto pode ser mais interessante para um economista que gosta de futebol do que essa disputa pelos direitos de transmissão dos jogos do campeonato brasileiro. Seguem aqui alguns comentários, dando seqüência ao post que escrevi em Maio de 2010 e saiu no
Blog do Nando (link
AQUI).
Sobre a estratégia dos clubes
A estratégia de acabar com a negociação em bloco não parece ser a melhor estratégia. Nas ligas e eventos mais rentáveis do mundo a negociação se dá em bloco. Quanto maior o poder de barganha do bloco, maior o valor recebido. Certamente esse racha no Clube dos 13 teve outras motivações que não são diretamente ligadas ao valor a ser recebido. Um grande problema reside no grau de endividamento dos clubes. Qualquer um que ofertar um adiantamento do valor leva vantagem. Foi isso que a Globo prometeu a Grêmio e Cruzeiro, por exemplo. Estes clubes já assinaram com a emissora. O que os clubes deveriam ter entendido é que a exclusividade do direito de transmissão tem alto valor agregado. O futebol é um produto que tem alta demanda, e a TV aberta propicia grande receita de anúncios. Com o racha, os clubes estão diante do risco de não conseguirem a quantia total máxima.
Sobre a divisão da receita
Notem que em momento algum eu falei sobre como esse dinheiro deveria ser dividido entre os clubes. Esta é uma outra questão. Uma vez maximizada a receita total, poderia ser criado um mecanismo de divisão. Na NFL o mecanismo é quase igualitário. O que não parece ser o caso da La Liga (campeonato espanhol). Nesse momento os clubes tem que parar e decidir que tipo de futebol eles querem. Se querem um campeonato como o espanhol, com 2 times fortes, ou uma NFL, com 32 times fortes.
Em geral, os clubes usam pesquisas com número de torcedores como forma de aumentar o poder de barganha dentro do bloco. Nada poderia ser mais falacioso para se medir o potencial de receita de direito de transmissão. O que importa é por quanto as TVs vão vender os anúncios durante os jogos e nos horários dos programas esportivos e tudo mais. Se a torcida do Flamengo é 10 vezes maior que a do Grêmio, mas o telespectador do Grêmio tem um poder de compra maior que o do flamenguista, então não é necessariamente verdade que o Flamengo deva ficar com uma fatia 10x maior da receita.
Obviamente que o poder de barganha (e aí falo de poder financeiro e político) entram na disputa, mas certamente o número dos que se dizem torcedores (mas que jamais compraram uma camisa oficial, e são classificados por muitos amigos meus como "simpatizantes") não é uma boa estatística para saber qual clube tem maior potencial para gerar receita de anúncios.
A verdade é que a divisão das receitas poderia ser feita de modo a beneficiar os times menores sem tirar muito dos maiores. Algo com bandas de receita, e acrescido de um mecanismo como os dos drafts da NFL, em que o time que foi pior na temporada passada acaba ganhando mais para se reforçar para a temporada seguinte. Esse mecanismo é totalmente discutível. Eu acho bom, acho que essa forma agrega valor ao esporte como um todo.
O racha
A briga do Clube dos 13 diminuiu muito o valor potencial. A Rede TV! pagou 516 milhões por ano. Agora imaginem o que teria sido arrecadado caso toso os times tivessem ficado unidos e comparecido no dia do leilão. O boato é que o pessoal da Rede TV! tinha mais outros dois envelopes. Um com um valor acima de 600 milhões e outro com um valor bem mais alto.
Sobre a forma de venda dos jogos
Esta parte também é interessante. Por que vender a temporada inteira? Por que vender 3 anos? Eu sugeriria um mecanismo que separasse os jogos em grupos, dias, horários e os grupos fossem vendidos aos pedaços. Obviamente que o clube dos 13 poderia fazer pesquisas com os torcedores e verificar qual o dia e horário mais conveniente para quem vai ao estádio e usar esse horário no leilão. Assim, você maximizaria a receita da bilheteria e da TV ao mesmo tempo.
Sobre as estratégias das emissoras.
As emissoras estão buscando o que é melhor para elas. Se pra Globo não vale a pena transmitir os jogos dos times pequenos, então tudo bem. A questão é saber o que o CADE vai decidir sobre isso. Certamente, o modo como o Clube dos 13 decidiu vender (3 anos de jogos) encareceu o produto e pode ter tirado concorrentes. Também não dá para saber quanto vai sair o custo da Globo em comprar aos pingados. Ela já gastou cerca de 80 milhões por ano. só com o Cruzeiro e Grêmio, isso é muito, se for comparado ao total pago pela Rede TV! para ter todos os jogos, 516 milhões por ano. O certo é que a Globo está impondo uma cláusula de sigilo. O valor de fato ninguém saberá. Alguns entendidos acham que as emissoras precisam de consultoria econômica.
O que vocês acham?