Ads 468x60px

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Frase do Dia: PIIGS e Argentina


A frase abaixo foi escrita em um dos meus meios de comunicação online. O autor se refere à situação da crise da dívida dos países europeus:

"Os PIIGS de hoje são um amontoado de Argentinas da década de 90."


PS: o autor não quis se identificar.

8 comentários:

Cristiano disse...

Em que sentido professor os PIIGS se assemelham a Argentina da década de 90?
Eu vejo a situação dos PIIGS também mt parecida com a federação brasileira logo após o Plano Real. Com o processo de estabilizaçÃo, alguns mecanismos espúrios como o adiamento do pagamento dos salários do funcionalismo, a utlização dos bancos estaduais para se financiar não tinham mais espaço com a estabilização de preços. E naquele momento a União precisou ter pulso firme para privatizar os bancos estaduais, renegociar as dívidas estaduais que eram insustentáveis e obrigar os governos estaduais a realizar superávits primários para pagar essa dívida. Naquela época o Rio Grande do Sul era a Grécia de hoje!!! hehehehe
Acho que se pudesse fazer uma analogia entre a federação brasileira e a União Européia poderíamos comparar a Alemanha com o governo federal.
Naquela época o governo federal comprou os custos desse ajuste mas será que a Alemanha vai fazer o mesmo?
Abraço!

Pedro H. Albuquerque disse...

Essa paralelo Cristiano é muito pobre, por diversos motivos, entre eles: (1) a Argentina usava como lastro a moeda de um país estrangeiro, enquanto que todos os países membros são detentores plenos da moeda que utilizam; (2) a Argentina nunca teve um banco central independente, enquanto que esses países têm um dos dois banco centrais mais independente da história da humanidade (o outro é o da Suíça); e (3) a Argentina não participa de nenhuma união econômica significativa, enquanto que os países da zona euro são enormemente integrados do ponto de vista de políticas regulatórias comuns, políticas de imigração comuns, mercados de capitais livres e são partes de uma união aduaneira perfeita.
Ou seja, a única semelhança entre Argentina e os países altamente endividados da zona euro é a situação fiscal precária de alguns, mas nisso não há nenhuma grande diferença em relação à situação atual (ou a vir) do Brasil, China ou Estados Unidos.

Cristiano M. Costa disse...

Cristiano e Pedro,

sim, existem diferenças. Mas existem algumas semelhanças. Os países estão endividados e com salários que não representam a produtividade marginal dos trabalhadores, devido ao câmbio.
Em ambos os casos o ajuste passa pela questão fiscal e também por uma questão de preços relativos.
Além disso, em casa de saída do Euro os cidadãos vão ter dívidas em moeda estrangeira, como era o caso argentino.
Mesmo estando em uma área comum, os países da Europa tem uma migração de trabalho menor do que se imagina. Imagino que seja relativamente pequeno o fluxo de gregos indo trabalhar na Alemanha.

Não quero defender o autor, apenas lembrar algumas semelhanças, ehehe.

Abs
Cristiano M. Costa

Pedro H. Albuquerque disse...

Francamente, esse tipo de literatura não somente é superficial mas sofre de pesado problema de viés de confirmação e até mesmo hipocrisia. Ponto por ponto: (a) o câmbio flexível numa união aduaneira econômica perfeita normalmente leva a depreciações competitivas (guerras cambiais) como bem explicado por Mundell e observado historicamente, ou seja, há um problema de coordenação monetária muito grave com o regime de câmbio flexível neste caso; (b) diferenças de salários e produtividades muito mais elevadas são observadas em regiões com moeda única, por exemplo, o estado de Michigan é bem conhecido pela sua perda histórica de competitividade e salários elevados, e diferentes regiões da China e do Brasil conheceram historicamente diferentes crescimentos de produtividade e salários, também em desequilíbrio, e nem por isso dizem que a solução é o fim do dólar ou do yuan ou do Real; (c) gregos são conhecidos por serem bons emigrantes, inclusive muitos na Alemanha (http://en.wikipedia.org/wiki/Greeks_in_Germany); (d) mobilidade de mão de obra é baixa em *todas* as regiões do mundo portanto este argumento seria igualmente motivo para o fim de moedas como o dólar, especialmente neste momento com a crise das hipotecas, onde a mobilidade próxima de zero nos EUA (a prova disso é o fato bem conhecido de que as taxas de desemprego não convergem entre os estados americanos); (e) a mobilidade de mão de obra na Europa é maior do que muitos imaginam e cresce com o passar do tempo, ao contrário do que ocorre em outras regiões do mundo, por exemplo, EUA, onde ela é menor que muitos imaginam e tem caído com os anos.
E tem mais, mas paro por aqui.

Cristiano M. Costa disse...

Pedro,

aqui vão as minhas considerações:

(a) o problema de um câmbio só é que você perde grau de liberdade; Inglaterra, e os países nórticos são o exemplo. Se gera guerra cambial, então a pergunta é: em momentos de crise, qual modelo leva a uma recuperação mais rápida e mais homogenea entre regiões? Qual o custo para o PIB de uma guerra cambial?

(b, d e e) Sim, mas no Brasil você vê os nordestinos indo pra SP. E nos EUA a mobilidade diminuiu pela falta de liquidez no mercado de imóveis, mas ela sempre foi alta.

(c) Imagino que os gregos até possam ser bons migrantes, mas pense no caso da Espanha, que tem 22% de desemprego. Sei lá, eu imagino que seja mais difícil um sr. de 40 anos espanhol sair da Catalunha pra Berlim, do que sair do Ceará para SP. Eu queria ver esses dados da Wikipedia antes e depois da União Monetária. Se eles já eram migrantes bons até 85, devem continuar sendo.

Enfim, em ambientes de alto desemprego numa gregião e baixo na outra eu imaginaria as pessoas migrando mais.

Nos EUA, China e Brasil, nunca teve um estado com 22% e outro com 4% de desemprego.

Enfim, eu concordo em partes com você e em partes com o autor da frase.

Mas, como a frase não é minha, também fico por aqui.

Abração
Cristiano

Cristiano M. Costa disse...

Pedro,

Aqui tem uns dados que comparam o fluxo pra alemanha entre 2003 e 2008. Os numeros mostram uma queda, exceto em Berlin:

http://www.statistik-portal.de/Statistik-Portal/en/en_jb01_jahrtab2.asp

Enfim, o ponto é: não é a moeda que vai fazer o cara migrar.

São outros fatores.

Abs
Cristiano

Pedro H. Albuquerque disse...

Cristiano,
(a) uma diferença de desemprego entre 16,5 e 3,5% é suficiente para causar a implosão do dólar?
http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_U.S._states_by_unemployment_rate
Se não, porque é que você acha que uma diferença entre 22 e 4% seria suficiente?
(b) Você perde um grau de liberdade certamente, e é este *exatamente* o objetivo da união monetária. O Texas perde um grau de liberdade ao participar da zona dólar, mas ganha outras liberdades, como flexibilidade plena de capitais. Isso é particularmente importante para um país pobre e com um governo sem credibilidade como a Grécia.
(b) Você acha que um carioca de 44 anos emigra facilmente para o Mato Grosso do Norte? E um morador de Manhattan de 44 anos, emigra facilmente para o Alabama? Por outro lado, eu emigrei aos 44 anos dos EUA para a Europa... O que isso lhe diz sobre a flexibilidade do mercado de trabalho francês?
(c) Você sabia que na China a mobilidade de trabalho através de regiões inexiste pois depende de autorização governamental estrita para migração? O yuan vai acabar por causa disso?
(d) O fato de que o nordeste brasileiro é o que ele é fez com que a população nordestina convergisse para zero? Todo nordestino desempregado emigrou para São Paulo? Qual proporção?
(e) A queda na emigração de gregos é bem conhecida e deve-se à melhora das condições de vida na grécia após a adoção do euro.
(f) Se você está sugerindo que o problema não é monetário ou cambial, mas sim fiscal e de falta de flexibilidade nos mercados de trabalho, então concordo 100% com você.

Cristiano M. Costa disse...

Pedro,

(a) não, não causaria. Mas será que não seria mais homogêneo se cada estado tivesse a sua moeda? Note que o 16,5 é justamente Porto Rico. Mas tudo bem, na california está alto mesmo. O problema da mobilidade dos EUA atual, é justamente a questão do setor imobiliario.

(b) É discutível. Com certeza tem um custo - não necessariamente pra Grécia.


(c) Não tem como saber, mas não acho que isso muda se a moeda for a mesma, esse é o ponto.


(d) Pô, claro que não, só até o PmG ir se equilibrando (controlando por todos os subsídios, costs de transporte, oferta de servicos publicos e tal). A questão não é ser nordestino ou não, e sim, de produtividade marginal de cada indivíduo vs. custo de migracao. Tem auto-seleção.

(e) Agora eles vão pagar a conta, certo?

(f)Sim, nesse ponto concordamos. Mas acho que a saída vai ser monetária. :)

Abs
Cristiano