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terça-feira, 30 de agosto de 2011

A Falácia Econômica do Ensino Gratuito


Entre os cantos de guerra que ecoam nos campi federais um deles se destaca. É o grito apaixonado pela "universidade pública, gratuita e de qualidade".

Para mim, a maior falácia desta tríade acadêmica é a gratuidade. Obviamente, o sistema público de ensino superior não é gratuito. Ele custa, e custa muito aos cofres públicos. Não só diretamente, mas também em termos de custo de oportunidade. Afinal, seria muito mais inteligente investir grande parte dessa verba no ensino primário e secundário (ver resultado do PISA).

Mas, digamos que eu queira fazer um cálculo individualista, totalmente maximizador da utilidade individual. Eis que então faz sentido termos a gratuidade para mim, certo?

Bem, é aí que o cálculo pode falhar. Vamos imaginar duas universidades.

Suponha que exista uma universidade privada que ofereça o curso que eu desejo e de uma certa qualidade. Digamos que ao concluir esse curso eu vou receber em média o valor Y a cada ano após ter me formado, por exatos 31 anos. Obviamente, esse curso tem um preço. Digamos que seja X por ano. O curso tem duração de 4 anos.

Portanto, o valor financeiro da minha educação é a soma desses valores Y durante 31 anos descontados a uma taxa r, a partir da data de formatura, menos o valor X a cada ano, também descontado.

Ou seja,

Para facilitar, vamos dar números fictícios. Assuma que a taxa de juros real seja 6% ao ano (Selic - Inflação), a faculdade custe 12,000 por ano (cerca de 1,000 por mês) e a renda Y seja 41,000 por ano (algo em torno de 3,000 por mês + férias e décimo terceiro). Parece razoável, não?

O valor presente desses desembolsos e recebimento seria seria R$ 435.424,15.

Agora imagine que você tenha como outra opção a universidade pública, gratuita e de mesma qualidade que a privada. Neste caso X é igual a zero e se tudo fosse exatamente igual à universidade privada, incluindo o seu empenho nos estudos, a qualidade do professor, a dificuldade das provas e suas chances no mercado de trabalho, então o valor presente seria maior.

De fato seria exatamente R$ 479.500,30.

Legal, não é mesmo? Mas, infelizmente não é bem assim. Esta é a grande falácia. Apresento a vocês um potencial cenário.

Greve de funcionários e professores por 1 semestre

Assuma que ocorreu uma greve na faculdade que se extendeu por cerca de 1 semestre. Neste período não houveram aulas e você acabou atrasando a sua entrada no mercado de trabalho. Juntando a greve, com o período de reposição e tudo mais você acabou atrasando seu perfil de salários em 1 ano (isso aconteceu comigo de fato). Além disso, imagine que essa greve tenha afetado a qualidade do seu curso, afinal você perdeu o ritmo, deixou de ter acesso à biblioteca, etc. Imagine que essa qualidade tenha caído muito pouco na verdade. Suponha que agora, ao invés de ir ao mercado de trabalho e ganhar 41.000 você vai ganhar 39.500 no ano.

Nesta situação, o valor presente passa a ser R$ 430.669,90. Ou seja, menor do que seria se você tivesse ido para a universidade privada.

Podemos fazer uma conta parecida, mas afetando somente a qualidade.

Qual a diferença de qualidade da universidade pública para a privada para não valer a pena estudar na pública?

A resposta é simples: se o seu salário no mercado de trabalho for R$ 37,231.24 ou menor. Ou seja, se o salário de um formando em universidade pública for 90,8% do salário de quem se formar na escola privada. Neste caso o valor presente será exatamente o mesmo: R$ 435.424,15.

Portanto, se a qualidade de uma universidade privada for 10% maior que a pública, em termos de salários recebidos após a formatura e tudo mais constante, a universidade gratuita se torna uma mera falácia econômica.

PS: Obviamente que os meus cálculos dependem da taxa de juros, número de anos trabalhando e do custo da universidade privada. Por exemplo, os custos e rendas futuras de um curso de medicina é diferente de um curso de economia. Mas os valores supostos são razoáveis.

PS: Sim, eu sei que existem restrições de crédito. Vamos retomar esse tema no futuro.

21 comentários:

Falcao disse...

O problema é que provavelmente a característica mais importante de uma faculdade é a qualidade de seus alunos, que, na média, ainda é maior na universidade pública.
Mas claro que sou contra a gratuidade, por ser injusta e concentradora de renda. O que eu sinto em conversas com esquerdistas é que a forma de pagamento interfere no posicionamento, a maioria deles não seria contra aumentar o IR para o pagamento da dívida pelo estudo em universidades federais, acho que na Austrália é assim.
Abs

Eduardo Azevedo disse...

Grande post. Tb fiz umas contas sobre isso, a conclusao foi que o ganho de cobrar pela faculdade publica seria da ordem de R$ 100,000 pra cada aluno que mudasse (!!!).

http://www.people.fas.harvard.edu/~azevedo/papers/educacao_superior_no_brasil.pdf

Ronald Hillbrecht disse...

Cristiano,

Como de hábito, bom post! Com a autoridade de professor de universidade pública (para mostrar que não sou viesado a favor das IFES), sempre dou o exemplo de que é possível que a criação de uma instituição de ensino pública possa reduzir a qualidade média de ensino escolhida pelos alunos! Basta um gráfico com uma curva de indiferença, uma restrição orçamentária de um contínuo de qualidade de ensino privado contra (no outro eixo) o consumo de todos os outros bens e um ponto orçamentário decorrente da escolha de educação gratuita. Sem precisar de escolha intertemporal, até aluno de graduação entende!

Abraço,

lucas disse...

Cristiano,

Não concordo, pelo simples fato de discordar que a universidade não seja, ela somente a responsável pela qualidade do profissional formado, sendo a cargo deste a principal responsabilidade, portanto, seu último 10% é mera especulação.

Analisando sobre a perspectiva economia, qual quer um dos lados pode ser manipulado para sobrepujar o outro, sua base de afirmação, é, logicamente, falsa, por isso qualquer afirmação posterior seria verdadeira!

Cristiano M. Costa disse...

Caro Lucas,

obviamente a universidade não é a única formadora. Pessoas aprendem também fora da universidade e até lendo blogs, não é mesmo?

Mas, estou analisando a média salarial. Portanto, se um aluno tem aprendizados e/ou experiências fora da universidade, ele pode fazer isto em qualquer uma das duas. Logo isso não afeta a análise relativa.

Perceba também que o objetivo não é criar uma verdade, mas sim chamar a atenção sobre o conceito de gratuidade.

Uma crítica que pode ser feita é a que o Falcão fez, que é a da auto-seleção. O que acontece é que os melhores alunos vão para as públicas, portanto quando eu olho os salários deles eles podem até ser mais altos que os dos alunos das privadas.

Mas grande parte disso é habilidade justamente de fora da universidade. De modo que este viés de seleção na verdade vai a favor do meu argumento. Ou seja, se houvesse um sistema de crédito em qur o aluno mais habilidoso pudesse pagar a privada o ganho dele seria ainda maior!

Abraço,
Cristiano

Anônimo disse...

Bom raciocínio. Mas o Y não deveria ser o diferencial de salário entre os grupos de nível médio e superior?

Usando a regras "as if" de Friedman, os estudantes já fazem essas contas ao comparar a reputação das escolas.

Abs

Cristiano M. Costa disse...

Anônimo,

o Y já é bem acima do salário do ensino médio. Aqui estou assumindo somente que a escolha está entre universidades.

A sua segunda crítica é válida. E muito boa por sinal.

O objetivo não é entender ou explicar a escolha do aluno. É só apontar que financeiramente não sai de graça.

Mas, se mesmo sendo custoso financeiramente eles continuam escolhendo a pública é porque tem outros fatores que não são financeiros que estão afetando a escolha.

Além disso, tem um outros fatores econômicos que não estão no modelo, como a restrição d crédito e aversão ao risco, por exemplo.

Abraço,
Cristiano

Ricardo Agostini Martini disse...

[i]Mas, se mesmo sendo custoso financeiramente eles continuam escolhendo a pública é porque tem outros fatores que não são financeiros que estão afetando a escolha.[/i]

Cristiano, só fazendo uma consideração:

O teu modelo parte do pressuposto de que os alunos conhecem o salário que vão ganhar no mercado após se formarem, e esse salário independe de qualquer outro fator além do diploma. Acho que as pessoas não tomam a decisão de prestar o vestibular pensando assim.

Só por sugestão, o que aconteceria se os alunos não conhecessem a sua renda pós-formatura (pois depende também de fatores macroeconômicos e tecnológicos que estão além de suas escolhas), e usassem como variável de sinalização a renda média dos alunos de cada instituição de ensino superior (que indicaria a reputação das diferentes universidades)?

Abraço,

Ricardo

Cristiano M. Costa disse...

Ricardo,

com certeza meu modelo não tem riscos. Por isso eu fiz o comentário sobre aversão ao risco no meu último comentário. Você tem toda a razão.

Se eles olham para o salários médios (um sinal) então eles estão olhando uma variável que é um pouco problemática, por dois motivos:

1) O sinal de reputação contém muitas outras coisas além da qualidade do ensino. Uma delas é a qualidade do aluno entreante. A reputação de os ex-alunos de uma escola X ganharem mais do que os ex-alunos de uma escola Y depende não só na qualidade do ensino, mas na qualidade do aluno. Logo, fica difícil separar.

2) Mais ainda, a reputação passada não necessariamente é um bom previsor da renda futura.

A dinâmica das nossas universidades públicas é de deterioação à longo prazo. É muito caro, ela não vai ter capacidade de atender todos os formandos do Ensino Médio. Por isso programas como o Nossa Bolsa, Prouni, etc estão aparecendo, pra contornar o problema maior, que é a restrição de crédito.

Veja que eu posso ainda tornar a sua questão mais complicada. Se os alunos além de habilidades diferentes tiverem graus de aversão ao risco diferentes. E para piorar ainda mais, eu poderia ter uma correlação positiva entre os dois. Ou seja, os mais habilidosos são mais aversos ao risco. Que tal?

Abração,
Cristiano

Be-8.org - Emersson disse...

posso sugerir que entrem no site:

www.be-8.org

ou

www.infinitunm.com

é um projeto social sem recursos que está começando e está justamente democratizando o ensino, ou seja, dando acesso real as pessoas ao conhecimento gratuito, conhecimento ensinado nas melhores universidades do mundo, pelos melhores professores do mundo, acabando com a desigualdade educacional no país.

como não tem recursos, se acreditarem no potencial, dêem like no aplicativo do facebook www.be-8.org e divulguem em seus sites, blogs, etc. precisamos desses likes para conseguirmos divulgar o projeto e bancá-lo.

quaisquer dúvidas ou quem quiser ajudar, me enviem um e-mail com o assunto 'Be-8 quero ajudar' para meu e-mail pessoal emersson11@gmail.com

Achei que tinha muito a ver com o post do blog, parabéns pela visão crítica que possuem.

Abraz

Anônimo disse...

Cristiano,

Você pode fornecer alguns artigos que falem que o benefício do investimento público em educação primária e secundária em relação ao ensino superior?
O que eu queria saber precisamente é se o benefício social marginal do ensino fundamental e médio público são maiores que o do benefício do ensino superior.
Acredito que seria mais eficiente se o governo deixasse de ser administrador das universidades e passasse a ser um financiador das bolsas de estudos. O governo privatizaria as universidades públicas e instituiria um "prounizão". Dessa forma o dinheiro economizado seria usado para fortalecer o ensino básico e médio. Claro que isso não seria tão preto no branco, mas era uma ideia legal.

Obrigado.

Diego

lucas disse...

Cristiano,

Novamente discordo do seu comentário, não vejo as universidades particulares superiores às públicas, pelo menos não a ponto de afirmar que os alunos mais habilidosos tivessem desempenhos ainda maiores nas primeiras se comparadas com as segundas.

É claro que existem casos onde a falta de recurso, muleta mais utilizada nas universidades públicas, pode influenciar na formação profissional.

Porem, mesmo com este aspecto, vejo que, na média, a qualidade das universidades públicas é superior as privadas, mesmo estas tendo os tais recursos.

Quanto a seletividade, bem, no paraná, estado onde resido, a maioria dos alunos da maior universidade federal do estado é oriundo de ensino médio público, superando até mesmo a cota destinada, isto não favoreceria o argumento do primeiro paragrafo?

Acredito que a argumentação quanto ao ensino deveria ser pela qualidade, seja nesse ou naquele arquétipo de faculdade. Ambos deveriam formar melhores, e, inclusive, o que seria a maior critica sob meu ponto de vista, terem melhores, mais relevantes e úteis pesquisas acadêmicas.

Agora o sucesso no mercado de trabalho, de um ou de outro, o que pende ao seu argumento, isto é extremamente relativo, tanto ao indivíduo, como ao curso "prestado". Mas este já é outro assunto!

Abs, Lucas

Anônimo disse...

Acho q tb faltou incluir na discussão um aspecto mt importante a favor das universidades públicas:
Cristiano, vc não acha que as externalidades geradas nas inst. publicas de pesquisa são mt maiores que nas inst. privadas?

Por exemplo, nas públicas hveria mais espaço para pesquisa em campos que podem ser promissores, ainda que estes não estejam "na moda"? Ou ainda, nas públicas a disseminação dos novos conhecimentos não seria mais ampla?

Enfim, acho que devemos tomar mt cuidado ao usar a micro "básica" para analisarmos os casos do dia a dia, pois muitas vezes a existência de falhas de mkt impõem sérias restrições ao seu uso "simplificado".

Abçs
Daniel

Cristiano M. Costa disse...

Daniel,

concordo com o argumento de escala/interdisciplinariedade.

Mas, porque isso não pode ocorrer nas privadas? As maiores universidades americanas são privadas e o conhecimento é disseminado e interdisciplinar.

Mais ainda, se existir um campo de pesquisa qu eo governo e/ou ou sociedade tenah interese basta abrir um edital e dar bolsas. O governo inclusive já faz isso.

Mais do que isso, pode criar centros de pesquisa, como a Embrapa (que é um exemplo de sucesso no setor público e que eu gosto de usar). Nesses centros podem ser feitas pesquisas que não estejam "na moda" como vc fala.


Abs
Cristiano

Leonardo Monasterio disse...

Cristiano,
Eu estou cada vez mais simpatizando com o pessoal que diz que ensino é mais sinalização do que qq outra coisa. Se isso for verdade, os egressos de u publicas ganharão mais, mesmo que a qualidade caia. O motivo é que, como o ingresso é mais difícil, os mais capazes lá entram (mesmo sabendo que a qualidade é pior) e os empregadores tb os contratarão (mesmo sabendo que os cursos sao ruins).
Veja, nao estou apoiando a univ publica. Afinal, se educ superior é apenas sinalizacao, logo nao tem deve ser subsidiada.

Ronald Hillbrecht disse...

Leo,

Eu não sou muito fã da ideia de que ensino é só sinalização, pois é uma sinalização muito cara. Fosse apenas sinalização, valeria muito mais a pena estabelecer o job market em campeonatos de xadrez e contratar os melhores enxadristas. Mas concordo contigo que não vale a pena subsidiar a educação superior, mas por outros motivos: os principais beneficiários da educação superior são os próprios alunos, que obterão maiores salários no futuro. Em termos de externalidades, é melhor subsidiar educação infantil (creches, por exemplo), o ensino fundamental e o médio, em escala decrescente de prioridade.

Abs

Leonardo Monasterio disse...

Ué, Ronald, mas a sinalizacao tem que ser cara para funcionar, nao?
As virtudes de um bom funcionario sao bem parecidas de um bom estudante.
Quanto ao xadrez, o mestre Millor jah dizia: "O xadrez desenvolve uma inteligencia muito util para jogar xadrez" ;-)
Abracao,
Leo.

Cristiano M. Costa disse...

Pelo o que eu estou percebendo precisamos marcar o II Enbeco de uma vez...

E ae Shikida!?

Abraço
Cristiano

Ronald Hillbrecht disse...

Leo,

Seus dois pontos no último comentário parecem indicar que o problema não é apenas de sinalização:
i) "Sinalização para funcionar deve ser cara". Sim, concordo, mas para quem? Pode ser para a pessoa que está sinalizando (por exemplo, um enxadrista ou um vestibulando), não necessariamente para o governo. Se o problema for apenas de sinalização, torneios de xadrez são mais baratos para o governo do que subsidiar universidades públicas.
ii) Concordo integralmente com o Millor, que enunciou com maestria o halo effect, que diz que existe um viés cognitivo que faz com que a percepção das características de uma pessoa são influenciadas por outras características. É como acreditar que uma celebridade, por ser boa em ser célebre, é boa também em fazer análise social, em economia, etc. Em outras palavras, ter habilidades em uma área do conhecimento não significa ter iguais habilidades em outras. Trazendo de volta para a questão do ensino superior, não se trata apenas de sinalização, mas de desenvolvimento de habilidades específicas. Aí é que entram as considerações sobre qualidade do ensino. Caso não houvessem diferenças na qualidade, aí sim é que sinalização (com melhores notas, ingresso em escola mais cara, etc.) se torna o argumento mais relevante.

Abs,

Ronald

João Ricardo disse...

Confesso que fiquei com inveja por não ter abordado o tema de uma maneira tão objetiva e interessante. Parabéns pelo texto.

Anônimo disse...

Apenas um detalhe: verbo haver no sentido de existir é impessoal. Acho que o resto você se dá conta de concluir.

Bom texto.

Abraços.