Ads 468x60px

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Uma Nova Proposta para o Salário Mínimo


Apesar dos esforços econômicos e dos avanços significativos obtidos com as políticas que conduziram à estabilidade de preços e à distribuição de renda, via programas sociais, nos últimos 16 anos, a desigualdade ainda persiste no Brasil. Nosso país ainda precisa avançar muito na composição de políticas econômicas e sociais que atendam ao objetivo de melhorar a vida dos brasileiros de forma perene.

Um tipo de desigualdade que continua presente em nossa sociedade está relacionada à determinação do salário mínimo. No Brasil, o valor do salário mínimo é determinado pelo Executivo. Na verdade, o valor é fixado no orçamento, pelo governo, quando pode, então, passar por alterações, no Congresso, e, por fim, novamente ser alterado pelo Executivo, caso discorde das mudanças promovidas pelo Legislativo.

O salário mínimo serve de base para qualquer contrato no mercado de trabalho. Nenhum trabalhador, independentemente da região, área rural ou urbana, poderá receber menos do que o mínimo estabelecido pelo governo. Ademais, este salário também serve de indexador para outros contratos de trabalho e para o nível básico das aposentadorias do INSS. Mais, o mínimo afeta a folha de pagamento de todos os estados e municípios brasileiros, de modo que os reajustes promovidos conduzem a custos fiscais elevados, a depender da decisão do governo federal e do Legislativo, evidentemente, uma vez que se pode dizer que é uma decisão conjunta. Isto é, discordâncias (como está havendo neste momento), entre Executivo e Legislativo, levam à necessidade de veto ao valor fixado no orçamento e à edição de uma MP para fixar o valor desejado pelo governo, conduzindo a uma negociação política a ser decidida pela resultante destas forças.

Um problema claro na determinação de um salário mínimo nacional é não levar em conta as diferentes realidades regionais, tanto de renda quanto de nível de preços. Por exemplo, uma prefeitura que tem poucas receitas locais pode ter dificuldades em pagar um salário mínimo muito alto, enquanto prefeituras com mais recursos são pouco afetadas pelo mínimo nacional. Este tipo de política, portanto, ajuda a manter os níveis de renda equiparados entre as prefeituras do país, mas cria problemas fiscais para as menores. Quando o salário mínimo federal aumenta, ele eleva os gastos dos estados ricos e pobres de forma desproporcional. Muitos estados e municípios ficam engessados, com uma folha inchada.

Um segundo problema está relacionado ao fato de que o salário mínimo nacional não leva em conta as desigualdades no nível de preços. Usando os dados da cesta básica do Dieese, podemos fazer comparações simples. A cesta básica, em São Paulo, custava R$ 265,15 em dezembro de 2010. Este valor era de R$ 175,88 em Aracaju. Uma diferença de 50,75%. Isto somente para alimentação. Ou seja, o poder de compra de um indivíduo que recebe o mesmo salário mínimo e que, por hipótese, consuma a grande maioria dos bens componentes da cesta básica, é muito maior em Aracaju do que em São Paulo.

Finalmente, devemos levar em conta os efeitos microeconômicos sobre a oferta e demanda por trabalho em cada região. Certamente, alguns trabalhadores de Aracaju estariam dispostos a trabalhar formalmente por um valor inferior ao mínimo. Mas, talvez, o salário mínimo não afete muito o equilíbrio entre oferta e demanda em São Paulo. Como resultado, o mercado de trabalho estaria equilibrado em São Paulo, mas haveria um excesso de oferta de trabalho em Aracaju. Evidentemente, seria razoável supor que também um piso faria todo sentido em Aracaju, mas muito provavelmente ele não seria, em um ambiente com regras regionais, e não nacionais, idêntico ao de São Paulo.

Uma política mais eficiente seria levar estas desigualdades regionais em consideração. A nossa proposta, então, seria a de criação de um salário mínimo regional, determinado pelos estados. Cada estado elaboraria sua própria política salarial, levando-se em conta as desigualdades de renda. Isto já acontece, parcialmente. Estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, por exemplo, possuem mínimos regionais acima do piso nacional. Em São Paulo, existem, inclusive, diferentes faixas salariais de acordo com a profissão. O que não acontece é uma mudança no sentido contrário, ou seja, um salário regional abaixo do nacional.

Este tipo de política permitiria uma separação dos problemas gerados pelo salário mínimo nacional: elevados custos para os estados/municípios pobres, desigualdade do poder de compra e efeitos de oferta e demanda no mercado de trabalho.

Ao primeiro olhar, pode-se pensar que esta política exacerbaria as desigualdades regionais, já que provavelmente o mínimo de São Paulo seria (e de fato é) maior do que o de Aracaju, escolhendo duas cidades como exemplos práticos para que diferenças bastante evidentes possam ser colocadas em destaque nesta breve análise. Mas, as pessoas se esquecem das desigualdades de poder de compra. Este é o ponto fundamental. Um aluguel é muito maior em São Paulo do que em Aracaju, e o mesmo vale para a Cesta Básica, como vimos anteriormente. Sem mencionar que, efetivamente, municípios mais pobres, sob a nova regra regional, passariam a ter maior disponibilidade de receitas para gastar em outros programas, que não no pagamento de salários, muitas vezes sem sentido e totalmente alheio à realidade da média da população local. Em outras palavras, a população mais pobre poderia ser beneficia com programas de investimento em educação, transferência direta de renda e outros tantos que poderíamos gastar mais outros milhões de caracteres para descrever!

Esta política regional possibilitaria uma maior organização das finanças públicas de estados e municípios, que poderiam investir mais em serviços públicos e, ao mesmo tempo, permitiria um equilíbrio mais próximo do equilíbrio de mercado em cada um dos mercados de trabalho locais.

Cristiano M. Costa (http://www.cristianomcosta.com)
Felipe Salto (http://www.blogdosalto.blogspot.com)

4 comentários:

PCT disse...

É uma ideia que faz sentido, mas você não leva em consideração o risco que passa a existir de governantes aumentarem o salário mínimio de forma desproporcional por motivos eleitoreiros, comprometendo as contas futuras do estado/município.

Cristiano M. Costa disse...

Oi PCT,
quem tem que medir estes riscos são os eleitores do próprio estado. Se eles elegerem um populista, só eles sofrerão as consequencias.
Abraco,
Cristiano

Karyne França disse...

Incrível como as pessoas não compreendem que a estipulação de um salário mínimo único e geral , apenas causa distorções na análise dos instrumentos básicos de oferta e demanda. Em muitos casos, o salário mínimo pode vir a gerar desemprego, visto que em alguns tipos de mercado, o mínimo é ainda muito oneroso. ( Pequenos comerciantes são um exemplo disso; muitas vzes não podem contratar mais mão de obra pela impossibilidade de arcar com o salário mínimo).

Enfim, a discussão é realmente abrangente e complexa, mas muito interessante!

Anônimo disse...

Cristiano:

Em priscas eras houve sálario mínimo regiona, nos moldes que sugestiona (posso até fazer uma pesquisa mais aprofundada para te fornecer período e legislação).

Ocorre que revelou-se inútil uma vez que houve migração de emprego (seria uma espécie de gerra "salarial" entre Estados da federação para atrais empresas), sem que houvesse uma efetiva diminuição no preço ao consumidor ou crescimento do PIB.

Aqui no RS passamos isso com o setor calçadista, pois a fábrica de sandálias Melissinha, antigamente estabelecida em sapiranga e parobé foi se estabelecer no NE, pagando salários mais baixos, sem que o preço de importante calçado tivesse seu preço diminuido nas prateleira da Paquetá.

A diferença de salários em muitos casos se dá em virtude do dissídio das categorias (diferenciados por região dos sindicatos envolvidos) mas que revela o mesmo efeito.

Entendo que a solução não é estimular a guerra fraticida entre Estados da Federação fracionando o salário mínimo ou concedendo incentivos fiscais e sim estimulando que Estados e Municipios (e a União é claro) invistam em logística e infra estrutura, pois isso sim alavancaria progresso de regiões mais pobres.

Abraço Fraternal