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segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Bolha no Mercado Chinês

Parece que estourou a bolha do mercado acionário chinês. Nos últimos 30 dias já são 21,81% de queda. É o Bear Market (queda de mais de 20%).



A bolsa chinesa foi a única que subiu consistentemente desde Outubro do ano passado, quando a crise estava no seu ápice aqui nos EUA. O índice de Shangahi está por volta de 2.600 pontos e muitos já falam de uma queda até os 2.000 pontos, voltando aos níveis de janeiro de 2009.

O motivo é muito simples, esse crescimento acelerado da economia chinesa via "investimentos público" não é sustentável. Direto do ChinaStakes:
In the debate over the exit strategy for the economic stimulus policy, Premier Wen Jiabao has emphasized once again that China is in a critical period, to advance or drop back, and the country's economic development lacks motivation and vitality. He states that China must unswervingly adhere to the direction of macroeconomic policy and continue to implement the proactive fiscal policy and moderately loose monetary policy.

After the introduction of the 4 trillion yuan economic stimulus package, many scholars and experts criticized the plan for focusing too much on investment and economic growth instead of structural adjustment, which further aggravates the economy's imbalances.

Quero só ver no que isso vai dar...

Onde Dói Mais

O Brasil disputa na OMC uma reparação pelos subsídios dados ao produtores da algodão aqui nos EUA. A questão é que pedir dinheiro pode não ser a melhor estratégia, uma vez que isso não afeta muito os EUA (que tem muito mais dinheiro que o Brasil) e não impõe uma penalidade de longo prazo aos americanos.

A Folha Online traz os detalhes:
Para "incomodar" de fato, a visão da diplomacia brasileira é que as sanções precisariam então atingir os EUA onde mais dói: propriedade intelectual -leiam-se patentes, especialmente as da indústria farmacêutica, e depois, eventualmente, royalties sobre sementes transgênicas e maquinário.

Para que isso aconteça, é preciso que a OMC conceda o direito à chamada "retaliação cruzada" - sanções em uma área diferente daquela em que a disputa teve lugar (nesse caso, produtos agrícolas). Ainda assim, mesmo que a solicitação seja atendida, será preciso modificar a legislação brasileira, já que a Constituição veda a prática. O projeto de lei já está em discussão no Congresso.
Eu não creio que essa seja uma boa estratégia, por 4 motivos:

1) A retaliação cruzada não repara as perdas do produtor de algodão brasileiro, que é quem está sendo diretamente prejudicado;

2) Resulta em uma mudança de preços relativos desnecessária entre algodão e remédios (por exemplo);

3) Gera um problema legislativo para o governo brasileiro, uma vez que essa quebra de patente pode servir de jurisprudência para quebras de patentes futuras (em outros casos de disputa na OMC);

4) O objetivo não deveria ser "incomodar" os americanos, ou "atingir onde dói mais", e sim proteger o produtor brasileiro de uma competição desigual.

Eu acho que o Brasil deveria pedir uma transferência direta baseada no valor dado aos produtores americanos, e transferir o valor para os produtores de algodão brasileiros. Isso beneficiaria os produtores e os consumidores, já que o preço do algodão cairia no mercado interno e externo.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Cartola

No video abaixo explica como se tornou um grande compositor apesar de não ter passado do ensino fundamental (detalhe para a parede de barro ao fundo).


quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Financiando a Educação

Do InfoMoney:
A partir do próximo ano, os estudantes que conseguirem o financiamento do curso superior pelo Fies (Programa de Financiamento Estudantil) pagarão o saldo devedor com taxas de juros de 3,5% ao ano. O CMN (Conselho Monetário Nacional) reduziu a taxa na quarta-feira (26).

O programa financia os cursos em faculdades particulares, credenciadas pelo Ministério da Educação, a taxas de juros que variavam entre 3,5% a 6,5% ao ano. A menor taxa era paga pelos estudantes que optavam por cursos de licenciatura, pedagogia e cursos superiores de tecnologia. Os demais pagavam a maior taxa. Agora, a taxa de 3,5% ao ano vale para todos os cursos.

No entanto, para quem já conseguiu o financiamento, as taxas continuam as mesmas.

Essa é uma excelente notícia. Uma das grandes diferenças entre o Brasil e os países desenvovidos era a ausência de um programa federal de financiamento subisidiado à educação superior. O FIES foi criado para suprir essa necessidade. Visto que o setor privado não vê esse mercado como muito lucrativo (e não é, de fato). Agora, com a queda dos juros, o programa brasileiro tem tudo para dar certo e se tornar, digamos, o Minha Casa Minha Vida da educação.

O grande cuidado com este tipo de programa é a inadimplência, que está diretamente ligada ao retorno financeiro da educação que o aluno irá obter.

Pense nisso!

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Erro de Conceito Básico no IPEA

A Míriam Leitão entrevistou o Samuel Pessôa (IBRE-FGV) e desvendou porque Roraima aparece como sendo o estado que mais aumentou a produtividade do Setor Público entre 1995 e 2006.

Do Site da Míriam Leitão:
Pela regra internacional da ONU e que o IBGE segue corretamente nas contas nacionais, a produtividade está relacionada a certas despesas, como salário. Quando o governo aumenta muito o salário dos funcionários, ele aumenta a produtividade.

Quer ler mais e ver o tamanho da trapalhada? Então clique AQUI.

A PEC nº231-A, de 1995

A atual Constituição Federal, promulgada em 05 de outubro de 1988 ( versão disponibilizada no site do Senado aqui ), prevê no artigo 7º (1), nos incisos XIII e XVI que a duração da jornada de trabalho semanal seja de 44 horas e que o prêmio pela hora extra trabalhada seja de 50% da hora normal (2).

A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) é o instrumento legal através do qual são feitas as propostas de alterações à Constituição Federal. Por se tratar de alterações na Carta-Magna, o processo de tramitação de uma PEC para aprovação (e conseqüente emendo na Constituição) é constituído de várias etapas que vão desde a averiguação de sua constitucionalidade até a votação em dois turnos tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado , sendo que sua aprovação requer, em cada uma das votações o voto de pelo menos 3/5 dos seus membros, i.e., 308 deputados e 49 senadores. Detalhes sobre o processo de tramitação de uma PEC podem ser obtidos no site da Câmara dos Deputados ( AQUI), onde também é apresentado um fluxograma com todas as etapas deste processo (AQUI).

A PEC nº 231-A, de 1995, já foi aprovada em Comissão Especial, em 30 de junho de 2009. Incluindo o substitutivo do deputado Vicentinho (PT-SP), relator da Comissão Especial, prevê mudanças no artigo 7º, incisos XIII e XVI, reduzindo a jornada de trabalho de 44 horas para 40 horas, mantendo a remuneração mensal, e aumenta o valor da hora extra de 50% para 75%. Nesta terça-feira, 25/08/09, teve início a etapa da tramitação de uma Comissão Geral, na Câmara dos Deputados, com destaque para a PEC nº 231-A, de 1995.

As idéias que estão por trás da PEC nº 231-A, de 1995, são as de que:

i) ao elevar os custos para manter um trabalhador na ativa, isto acarrete em uma redução da jornada de trabalho dos trabalhadores ocupados, melhorando seu bem estar, por um lado; e

ii) crie novas oportunidades de emprego (“partilha de emprego”), por outro lado.

Acredito que, se aprovada, tal medida poderá ter o efeito contrário do que esperam seus proponentes. Uma boa referência teórica pode ser encontrada no trabalho Camargo e Gonzaga (2009) (“Redução da Jornada de Trabalho”, mimeo) que concluem que:
"a revisão da literatura teórica e empírica sugere que a imposição de uma redução na jornada de trabalho legal com manutenção do salário mensal tem poucas chances de aumentar o nível de emprego no país, se não for acompanhada de medidas adicionais;

"a análise teórica e os estudos empíricos para o Brasil e outros países mostram que a probabilidade de que o efeito sobre o emprego seja negativo não é desprezível."

Também merece destaque o estudo de Camargo, Gonzaga e Menezes-Filho (2003) (3) que estimaram os efeitos pelo prazo de 12 meses após as mudanças das combinações das alterações na constituição de 1988 que influem na determinação conjunta de emprego e horas: “i) a redução da jornada padrão de 48 para 44 horas semanais, sem redução da remuneração mensal; ii) o aumento do prêmio da hora extra de 20% para 50% da hora normal; iii) o aumento dos encargos salariais; e iv) o aumento do custo fixo do emprego (principalmente através do aumento do custo de demissão).” Os autores concluíram que:
"não houve impactos nem negativos nem positivos sobre o emprego das alterações dos parâmetros de custos estabelecidos pela constituição de 1988, incluindo a redução da jornada de trabalho, no prazo de 12 meses após as mudanças."

Outra excelente referência está em um artigo recente do Prof. Naércio Menezes-Filho publicado no Valor Econômico, em julho de 2009( AQUI).

É importante ressaltar que as leis brasileiras não impedem reduções na jornada de trabalho como fruto das negociações entre trabalhadores (que podem ser bem representados através de seus sindicatos) e empresários, como aliás é o que têm sido observado em alguns setores da indústria brasileira.

O que você acha dessa discussão? Você acredita que a PEC nº 231-A, de 1995, irá melhorar a vida dos trabalhadores empregados e simultaneamente propiciar mais empregos?

Notas:
(1) O artigo 7º faz parte do Capitulo II, que trata dos direitos sociais, que é o primeiro capítulo do Título II, que trata dos direitos e garantias fundamentais.
(2) Até então, a jornada de trabalho e a determinação do prêmio pelas horas extras trabalhadas eram regidos com base na Consolidação das Leis do Trabalho, de 1945, segundo a qual a jornada de trabalho era de 48 horas semanais e o prêmio da hora extra era de 20% da hora normal.
(3) Camargo, J. M., Gonzaga, G. e Menezes-Filho, N. (2003). “The Unemployment Effects of the 1988 Working Week Reduction in Brazil”. Revista Brasileira de Economia Vol. 57 nº 3.


Uma versão extendida deste post foi publicada no Paulo C. Coimbra's Blog, em 24/08/09.

Paulo C. Coimbra (FUCAPE Business School) escreve no (Blog do Cristiano M. Costa todas as quartas-feiras, escreve mensalmente uma coluna sobre Derivativos na InfoMoney, às terças-feiras e desde 13/08/09 escreve posts em seu próprio blog, Paulo C. Coimbra’s Blog.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Gastos Públicos II

Ontem eu escrevi o post Gastos Públicos (leia AQUI). O meu argumento é que o aumento de gastos públicos em tempos de crise (e eleições) não é um grande problema, desde que não seja na forma de despesas permanentes, e que tenha havido uma poupança na época de crescimento econômico (imediatamente anterior à crise/eleição).

Em momento algum eu argumentei que a saída fosse um aumento de impostos ou um aumento da relação Receita Federal Bruta / PIB (a chamada carga tributária). Eu não escrevi que o governo deveria ter arrecadado mais antes, eu falei que o governo deveria ter poupado mais antes. São coisas diferentes. A poupança é a diferença entre receitas e despesas. Pode-se poupar mais aumentando a receita, ou diminuindo a despesa (ou com um pouco de cada).

Fica aí o meu pequeno esclarecimento à réplica do Shikida no De Gustibus (leia AQUI).

Resistência Canadense

Uma pergunta interessante lançada por um economista do Fed aqui da Philadelphia e outro do FMI é a seguinte:

Por que os bancos canadenses foram mais resistentes aos efeitos da crise?

Segundo os autores:
Capital adequacy ratios, for example, gave no clue as to which banks would go under. Even purer measures that compared common equity to assets were of little help. Indeed, capital ratios for those banks requiring intervention were actually higher than the group average. Examining liquidity ratios or non-performing loans versus total loans would also have been no help.

Está aí uma constatação muito importante. Se você quer entender a solidez de um determinado sistema financeiro, você deve olhar além dos índices de liquidez dos ativos e requerimentos de capital.

Ou melhor, olhar para adequacy ratios (CAR, capital total / capital ajustado ao risco) pode não ser uma boa medida. No momento que a crise se inicia essa medida não reflete o aumento de risco sistêmico e a probabilidade de o banco honrar compromissos, o ideal é olhar a estrutura de financiamento. Qual seria uma boa medida?
Empirically, the funding structure, as measured by the depository funding to total asset ratio, is the most robust predictor of bank performance during the turmoil.

E como os bancos canadenses conseguem uma melhor estrutura? Bem, eles mantém mais depósitos à vista (depositary funds) do que ativos chamados Wholesale Funds (Fed Funds, public funds (state and local municipalities), Federal Home Loan Bank advances, the Federal Reserve's primary credit program, foreign deposits, brokered deposits, and deposits obtained through the Internet or CD listing services). Os wholesale funds parecem líquidos, mas não são tão líquidos na hora que a crise realmente chega. Por isso o erro ao analisar os índices de liquidez.
The advantage of stable deposit funding may have insulated them from the freeze of wholesale funding markets, contributing to their resilience.

Leia mais sobre o estudo clicando AQUI.

PS: Esse artigo está diretamente ligado à um artigo que o Tiago Severo (doutorando da Harvard University) escreveu aqui para o blog sobre Regulação Financeira. Clique AQUI para ler.

PS2: Valeu pela dica Bruno!

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Aluguel de Livros

A nova onda do momento nas universidades americanas é o aluguel de livros. Basicamente, você aluga o livro para aquele semeste, pagando bem menos, e no fim do semeste você devolve o livro. Se o livro estiver em boas condições você paga menos. Os valores podem variar entre 40% e 70% de desconto com relação ao preço de compra.

Mais ainda, você pode alugar o acesso à versão eletrônica por um período limitado, e pagar ainda menos. Fantástico! Além de não ter que carregar o peso do livro você ainda paga bem menos. Fora que você não precisa ficar o resto da vida tendo que guardar aquele livro inútil que aquele seu professor mala fez você comprar porque ele tirava todos os exercícios do mesmo lugar.

Fiquei pensando, será que isso daria certo no Brasil?

Gastos Públicos

Por Fernando Dantas, no Estadão (via VEJA):
A despesa não financeira da União, descontada das transferências a Estados e municípios, deu um salto de 2,44 pontos porcentuais do PIB na comparação de janeiro a julho de 2008 com o mesmo período de 2009, saindo de 15,89% para 18,34% do PIB. Entre janeiro e julho de 2003 e de 2008, a alta foi de 2,05 pontos porcentuais do PIB, de 13,84% para 15,89%.

Esses números foram calculados em nota técnica recém-concluída pelos economistas José Roberto Afonso e Samuel Pessôa, da assessoria econômica do senador Tasso Jereissati (PSDB-CE).

Já havíamos tocado nesse assunto AQUI e AQUI. Mas parece que os gastos são típicos de um período pré-eleitoral. A teoria de ciclos políticos nos ensina que nos meses/anos que antecedem a eleição, o ritmo dos gastos públicos aumenta. Não há nada de absurdo aí. É uma estratégia dominante no jogo político, e sabemos que o jogo político está acima do bem-estar da população. O erro, no meu modo de ver, foi o governo não ter poupado o suficiente nos primeiros anos do governo para gerar despesas sem comprometer as contas públicas.

O acúmulo de gastos sucessivos e o modo como os gastos foram determinados nos últimos meses (aumentos de cargos e salários = despesas permanentes) resultou em um problema fiscal relativamente importante. Não digo que o governo tem uma crise fiscal, mas os dados fiscais poderiam estar em condições muito melhores, permitindo uma queda ainda maior dos juros.

Sem sombra de dúvidas, os gastos foram importantes para o Brasil sair da crise, de modo que o maior problema está na sua forma (despesas permanentes), impossibilitando uma rápida redução no momento que a economia/setor privado volte a crescer. Essa seria a minha maior crítica a política de expansão dos gastos públicos em 2009.

Leia mais sobre o estudo dos gastos públicos federais clicando AQUI.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Indicadores Antecedentes II

Para aqueles interessados em Indicadores Antecedentes nesta sexta-feira à noite, deixo AQUI um link para um excelente paper. Segundo os autores (João Victor Issler, Hilton Notini e Claudia Rodrigues):
"Vale citar que algumas séries antecedentes aparecem em vários dos critérios que utilizamos para definição dos índices antecedentes e aparecem principalmente dentre as que definem os melhores índices antecedentes - segundo o critério de menor QPS - são elas: Ibovespa, base monetária, M1, demanda externa, sondagem da indústria de bens de consumo, e sondagem da indústria de bens de capital."

Bom final de semana!

Leitura Dinâmica

O índice da bolsa de valores é considerado um Indicador Antecedente. A idéia é muito simples. Quando os economistas esperam que a economia irá apresentar maiores taxas de lucro, renda, salários, emprego no futuro, isso implica maiores lucros, vendas, receitas para as empresas. Quando os lucros futuros aumentam, então o valor da empresa também aumenta.

Como no caso das empresas de capital aberto (listadas em bolsa) o valor da empresa está diretamente ligado ao valor de suas ações, quando o valor da empresas sobe, o valor das ações também aumenta.

Portanto, quando as pessoas acreditam que a economia vai melhorar, a bolsa sobe (mesmo antes que a economia real melhore de fato). Por isso a bolsa de valores é um indicador antecedente, ela antecede os movimentos futuros de alta (e também de baixa) da economia real.

O índice Ibovespa é um dos que apresentou a mais rápida retomada após a crise. Nos últimos 12 meses seu retorno já é positivo em 7,38%. Um excelente número quando comparado aos -16,7% do índice americano Dow Jones.

A leitura dinâmica que eu faço desses dados (e do próprio movimento mensal das bolsas pelo mundo) é que a retomada virá logo. Muitas economias (Japão, Alemanha, Brasil, China, etc) já estão apresentando taxas de crescimento positivas, e isso logo ocorrerá aqui nos EUA também. Mas, sem sombra de dúvidas, o Brasil é uma das economias ocidentais que está em melhor situação econômica, e as perspectivas de crescimento para alguns setores (agrícola, minerais, combustíveis, varejo, etc) são fantásticas.

Demorará um tempo até que a economia americana crie os empregos necessários para todos os que foram demitidos durante a crise, e muita coisa irá mudar por aqui (nos EUA). Mas, neste momento, os dados apontam para um 2010 de crescimento pelo mundo, e o Brasil largará na primeira fila.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Paridade Real

Ontem o Grupo UBS divulgou o resultado de uma pesquisa que compara custos e rendimentos em diversas cidades pelo mundo. O estudo encontra-se AQUI.

Dei uma olhada rápida nos dados e a tabela que mais me chamou a atenção foi uma que traz os custos de uma cesta de produtos comparada entre cidades (página 14 do estudo). Para comprar a cesta de produtos são necessários 2.433,00 dólares em Chicago, uma cidade de um padrão médio-alto em termos de custos (evitei NY e LA). Já, para comprar esta mesma cesta em São Paulo, seriam necessários 1.879,00 dólares.

Ou seja, é necessário ganhar 1,3 (=2.433/1.879) vezes mais em Chicago do que em São Paulo para comprar a mesma cesta. Ou melhor, um salário anual de 32,5 mil dólares em Chicago seria equivalente a um salário de 25 mil dólares por ano em São Paulo, ou aproximadamente 45 mil Reais ao câmbio atual.

Essa é a conta que um brasileiro que vive no exterior deve fazer quando pensa em voltar para o Brasil, sob a hipótese de que o estudo foi bem feito, é claro.

Dêem uma olhada no estudo clicando AQUI.

PS: A cesta de bens não é perfeita. Por exemplo, o peso dado para combustível de aquecimento deve ser grande, e esse produto não é usado em regiões quentes como o Brasil. Mas mesmo assim, deve ser uma boa aproximação.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Venda Coberta de Calls

A primeira matéria que escrevi no Blog do Cristiano M. Costa, em 10/06/09, também se referia à venda coberta de opções de compra. Este também foi o tema que escolhi para a segunda matéria na minha coluna sobre derivativos na InfoMoney, publicada ontem (18/08/09) (AQUI).

A venda coberta de opções de compra (calls) é o termo designado para a situação onde o lançador (vendedor) de um lote de calls de ações possui (ou está prestes a possuir) em sua carteira o correspondente lote negociado em ações que servirão para "cobrir" as eventuais obrigações do vendedor caso haja uma elevação no preço da ação em um valor superior ao preço de exercício, que por sua vez irá motivar o titular (comprador) a exercer o direito de comprar as ações (que implicará na entrega por parte do vendedor do correspondente lote recebendo em contrapartida o preço de exercício subjacente às opções que foram lançadas).

De acordo com a operação estudada em 10/06/09, com base nos dados do dia anterior, vimos que teria sido possível adquirir Vale PN (VALE5) com um desconto de 3,45%, por R$32,17 (e não por R$33,32 a mercado). O preço de exercício da opção vendida era de R$36,00 e a opção não foi exercida. Caso tivesse sido exercida, o vendedor das opções teria tido um ganho de 11,9%.

As ações da Vale PN, VALE5, estavam cotadas no fechamento de 18/08/09 por R$32,20, bastante próximo do que teria sido o preço pago (em 09/06/09) com o financiamento da venda coberta de calls.

Na operação apresentada no estudo da matéria da InfoMoney (18/08/09), voltamos o foco para as ações da Petrobrás PN (PETR4), com base nos dados do dia 17/08/09, e o desconto que poderia ser alcançado através da venda de uma opção com preço de exercício de R$33,75 foi de 2,19%, que permitiria que a compra de PETR4 saísse por R$31,30 (e não por R$32,00 a mercado). Se as opções da PETR4 forem exercidas (o que pode ocorrer até o dia 21/09/09), o vendedor das opções terá um ganho de 7,83%.

Assim, podemos notar que as condições de mercado interferem tanto no desconto que pode ser alcançado, como também na valorização máxima que pode ser alcançada, no caso de ser exercido. Como observado na matéria da InfoMoney, se o trader não desejar ser exercido mas ainda assim desejar financiar parte da sua compra através da venda de opções então ele deverá optar pela venda de calls que estejam mais "fora do dinheiro", i.e., calls que possuem preço de exercício mais elevados. Desse modo, se for exercido, conseguirá uma taxa maior.

Paulo C. Coimbra (FUCAPE Business School) escreve no Blog do Cristiano M. Costa todas as quartas-feiras, escreve mensalmente uma coluna sobre Derivativos na InfoMoney, às terças-feiras e desde 13/08/09 escreve publica posts em seu próprio blog, Paulo C. Coimbra’s Blog.

Samba Econômico

Nesse samba de Paulinho da Viola, chamado Pode Guardar as Panelas, a realidade da falta de dinheiro é ilustrada de uma forma muito legal. Em determinado momento, em referência ao jogo do bicho, ele afirma:

"Fui apelar pro cavalo, joguei na cabeça. Mas ele não deu."

Sempre que ouço essa música lembro do sistema de crédito, mercado de trabalho, etc. Prestem atenção na letra. Nem o Seu Malaquias vende mais fiado pra ele...


terça-feira, 18 de agosto de 2009

Kenneth Rogoff

A maioria dos alunos de mestrado já ouviu falar do Kenneth Rogoff. Ele é professor lá em Harvard e tem um livro com o Maurice Obstfeld chamado Fundamentos de Economia Internacional.

O que pouca gente sabe é que ele foi um enxadrista dos melhores do mundo. Na verdade ele é um International Grandmaster. Ele fez graduação em Yale, terminando em 1975. Daí ele disputou vários torneios de xadrez enquanto fazia o doutorado no MIT, terminando em 1980 e indo pro FMI.

Nessa página AQUI você pode acessar 79 jogos do Rogoff, de 1969 até 1985. O próprio Rogoff tem uma página com a sua biografia como enxadrista AQUI, que na verdade ocupa a maior parte da sua autobiografia.

Leiam a parte final:

I must admit that I was not the best student in graduate school since, at the time, I was still torn between being a professional chess player and a serious research economist. Indeed, I ended up repeating my East High School experience, and dropped out after a semester, but this time I ended up deciding to re-enter a year later. I am fortunate that MIT was very accommodating about all this.

É mole ou quer mais?

Jogos Estratégicos


O Leonardo Monasterio deixou uma super dica de jogo pra PC.

Clique AQUI!

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Dinheiro Sujo

Eu sempre pensei que o pessoal no Brasil era especialista em lavar dinheiro. Bem, parece que isso não é bem verdade. Fizeram um estudo com as notas de dólares pelo mundo e detectaram que em alguns lugares as notas apresentam resíduos de cocaína.

Um camarada dá uam cheirada com a nota e depois passa adiante, e por aí vai. Bem, o resultado da pesquisa está abaixo:

Cities and cocaine
Bills turned up positive for cocaine in these percentages in certain cities:
100 percent: Detroit, Boston, Orlando, Miami, Los Angeles
88 percent: Toronto
77 percent: Salt Lake City
75 percent: Brasilia

Interessante, não? Leiam a reportagem completa clicando AQUI.

Modelos Macroeconômicos

Recentemente, iniciou-se um enorme debate, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, a respeito da utilidade do atual arcabouço teórico econômico, o qual e utilizado pela maioria dos pesquisadores e ensinado nos cursos de graduação e pós-graduação das principais universidades ao redor do mundo. A meu juízo, a discussão em si é bastante válida, pois este tipo de reflexão serve de base para inovações teóricas e práticas que contribuem para o avanço de qualquer ciência. Aproveito esta oportunidade para expor o meu ponto de vista sobre alguns aspectos relacionados ao tema, com ênfase na complexidade dos modelos econômicos.

Em geral, entendo que não ha excesso de matemática nos modelos mainstream, especialmente os modelos macroeconômicos mais importantes. As principais contribuições teóricas e empíricas em macroeconomia, os artigos seminais os quais revolucionaram o campo e servem de base para elaboração de políticas publicas, todos eles são, essencialmente, grandes idéias formalizadas de forma relativamente simples e intuitiva. Ainda que eventualmente contenham um pouco mais de estrutura matemática ou estatística, no seu âmago reside uma forma brilhante de pensar a respeito de um problema da realidade. Talvez a maior dificuldade com a pesquisa macroeconômica seja uma certa escassez de boas idéias, não excesso de formalização.

E muito difícil gerar idéias inovadoras ou revolucionárias a todo o momento. Estas ocorrem esporadicamente, fruto de contínuo esforço de mentes privilegiadas. Na maior parte do tempo, tais inovações simplesmente não surgem. Na ausência de um grande insight, o macroeconomista, bem como qualquer pesquisador em outras áreas, tende a relaxar hipóteses existentes em modelos anteriores ou considerar pequenas extensões de pesquisas passadas. Estas modificações sempre requerem maior grau de formalização matemática ou estatística, sendo que os resultados finais são, via de regra, marginalmente diferente. Como a maioria dos artigos publicados pertence a esta categoria de contribuições marginais, fica-se com a sensação de que há muita matemática para pouco conteúdo.


Isso não significa, necessariamente, que devamos mudar completamente o curso da pesquisa macroeconômica. Em primeiro lugar, esta é uma atividade que envolve riscos: é difícil saber com antecedência quando uma linha de pesquisa será muita ou pouco produtiva. Em segundo lugar, medir a produtividade ou relevância da pesquisa em macroeconomia não é tarefa fácil, dado o grau de subjetividade envolvido. Não raro, inovações cientificas surgem a partir de uma gama de pequenos estudos, os quais criam a massa critica necessária para as grandes descobertas. Contudo, acredito que há espaço para melhoras.

A principal mudança está relacionada à importância das fricções nos modelos. Não que isto seja novidade, ha inúmeros exemplos de modelos macroeconômicos com fricções reais ou nominais. Contudo, estas estarão cada vez mais no centro da análise. Assim, ferramentas como o teorema da irrelevância da estrutura de capital (Modigliani e Miller), a estrutura de mercados completos ou mesmo a hipótese de expectativas racionais serão paulatinamente modificadas ou substituídas para que a análise torne-se mais rica. O dilema é que estas extensões não irão simplificar os modelos, pelo contrario, irão torná-los ainda mais complexos, demandando maior formalização matemática, estatística e computacional.

O que será excelente, diga-se de passagem, desde que reconheçamos que todas estas técnicas são apenas ferramentas a serem utilizadas no estudo de questões importantes para a macroeconomia.

Tiago Severo é doutorando em Economia na Harvard University.

domingo, 16 de agosto de 2009

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Mais Contratos Futebolísticos

O Sob a Lupa do Economista é contra o teto salarial dos jogadores de futebol. Eu também sou contra o teto individual. Minha proposta é a de um teto coletivo e que varie com a receita do clube. Assunto que eu havia comentado nas sextas passadas (AQUI e AQUI).

Eles trazem dois argumentos contra o salary-cap individual:
1) Haveriam pagamentos em separado (luvas, bichos, etc).
2) Jogadores iriam para a Europa com maior freqüência.

São dois argumentos válidos. Mas a proposta do salary-cap não pode ser feita fora de um contexto de ampla reforma das relações contratuais (extenções mínimas, altas multas recisórias), respeito ao estatuto do torcedor e mudança do calendário. Aqui vão meus comentários.

1) A questão dos pagamentos indiretos me parece menor. É só o Clube dos 13 determinar que bichos, luvas, prêmios por gols, e etc fazem parte da remuneração total. Afinal, eles devem inclusive pagar impostos sobre essas receitas. É só uma questão contábil. Patrocínios individuais (chuteiras, faixinhas de cabelos, etc) continuariam sendo por fora.

2) A questão de os jogadores irem para Europa é uma falácia. Em um campeonato em que até a décima rodada o artilheiro era o Pedrão e na décima oitava o seu reserva imediato (o Val Baiano, assim mesmo, sem H) é o vice-artilheiro porque o primeiro foi pra Europa, a saída de talentos não me parece um problema. A oferta de "talentos" é tão grande que é preciosismo querer que Kaká jogue no Brasil. A verdade é que o futebol brasileiro já está nivelado por baixo, e a saída de um ou outro não mudaria muito. Um exemplo é o São Paulo. Todo ano o time perde dois ou três jogadores, e revela outros. É verdade que alguns são mantidos com salários altos. Mas é porque a receita também é alta.

Mas lembrem que o salary-cap que eu me refiro, é para a folha total do clube e seria uma função da receita do clube. Basicamente seria uma Lei de Responsabilidade Fiscal para os clubes. Leia mais AQUI.

Bom, fica aí o meu pitaco adicional sobre o assunto. E quem comentar que o Adriano Imperador é craque na véspera de Grêmio e Flamengo terá o comentário sumariamente deletado (ehehe, bricandeira...).

Curso: Farmacoeconomia

Muitas pessoas chegam no meu blog após procurarem pela palavra Farmacoeconomia na internet. Então, segue abaixo uma informação sobre o assunto:

O PPGE oferece o mini-curso "Introdução à Farmacoeconomia", ministrado pela Profa. Karen Rascati (Universidade do Texas/EUA). O objetivo do curso é introduzir os integrantes aos principais tópicos e questões da moderna farmacoeconomia, com uma das principais e renomadas pesquisadoras da área.

O mini-curso será realizado nos dias 15 e 16 de setembro de 2009, das 9h às 12h, na Faculdade de Ciências Econômicas da UFRGS. As inscrições (gratuitas) são realizadas na Secretaria do PPGE (Av. João Pessoa, 52 sala 33B, telefone 51 3308 3440), e são oferecidas 40 vagas.

Coordenação do Minicurso: Prof. Giácomo Balbinotto Neto (PPGE/UFRGS e Instituto de Avaliação em Tecnologias em Saúde da UFRGS).

A professora Karen Rascati também é autora de um livro de mesmo nome: Introdução à Farmacoeconomia. Segue o link AQUI.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Custos do Tabagismo

Vou deixar dois links para reportagens sobre tabagismo. O primeiro é uma pequena reportagem (de 2004) da MSNBC sobre a expectativa de vida dos fumantes e a grande queda no consumo de cigarros nos EUA. Fica aqui um trecho:
The surgeon general’s report concluded that smoking causes a number of diseases not previously attributed to smoking. They include: acute myeloid leukemia and cancers of the cervix, kidney, pancreas and stomach; abdominal aortic aneurysm, cataracts, periodontitis and pneumonia

Smokers die average of 13 to 14 years earlier

O segundo artigo é da American Lung Association. Entre outras evidências, o artigo aponta:
Smoking-related diseases claim an estimated 438,000 American lives each year, including those affected indirectly, such as babies born prematurely due to prenatal maternal smoking and victims of "secondhand" exposure to tobacco's carcinogens. Smoking cost the United States over $193 billion in 2004, including $97 billion in lost productivity and $96 billion in direct health care expenditures, or an average of $4,260 per adult smoker.

Smoking in pregnancy accounts for an estimated 20 to 30 percent of low-birth weight babies, up to 14 percent of preterm deliveries, and some 10 percent of all infant deaths.

Esse último fato, na minha opinião, é uma das piores externalidades que o cigarro causa. Bebês que nascem com peso inferior tem chances muito maiores de morrerem no primeiro ano de vida (ver AQUI).

Eu poderia fazer uma lista de todas as externalidades apontadas no site da American Lung Association, mas deixo a leitura para os que tiverem interesse. Segue AQUI o link.

Não Dá Pra Querer

Como diz um dos meus melhores amigos, "não dá pra querer" acordar e ter que ler isso (do InfoMoney):

A Comissão de Assuntos Econômicos aprovou medida que cria a contribuição assistencial destinada ao financiamento da negociação coletiva e de outras atividades sindicais. A contribuição, obrigatória, não ultrapassará 1% do salário bruto anual dos trabalhadores.

O objetivo da medida seria fortalecer os sindicatos. O Projeto de Lei 248/06, de autoria do senador Paulo Paim (PT-RS), seguirá para análise da Comissão de Assuntos Sociais.

Segundo a medida, as empresas que não pagarem a contribuição ficarão proibidas de obter empréstimos com instituições financeiras públicas, além de ficarem impedidas de participar de concorrências públicas.


Putzgrila! Detalhe, isso não saiu em nenhum jornal online de grande circulação.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Mercado Futuro

Nos mercados futuros negociam-se direitos sobre alguma mercadoria ou objeto financeiro. No Brasil, dentre as mercadorias negociadas destacam-se soja, café, milho e boi gordo enquanto que dentre os ativos financeiros há destaque para os contratos de DI 1 dia, dólar e Ibovespa.

Visando popularizar os mercados futuros, o segmento BM&F disponibilizou também minicontratos de alguns desses ativos, como, por exemplo, o Ibovespa e o dólar, que diferem dos contratos usuais pelo tamanho dos contratos, correspondendo a um percentual dos respectivos contratos padrões.

A utilização de mercados futuros como proteção, ou hedge, tem papel de destaque no tocante às modalidades de futuros de mercadorias. Por exemplo, um pecuarista pode estar preocupado com fatores que podem conduzir a uma queda no preço futuro do gado no momento em que se pretende comercializá-lo, que pode ser tal que leve a um prejuízo na sua produção considerando-se todos os custos e riscos envolvidos. Assim, ele poderia vender contratos futuros de boi gordo visando se proteger ante a uma eventual perda decorrente da queda na cotação futura R$/@ (uma arroba corresponde a 30 kgs). Os contratos futuros de boi gordo são negociados mensalmente sendo que a data de vencimento corresponde ao último dia útil do mês de vencimento. O tamanho do contrato é de 330 @. Desse modo, o volume de cada contrato é dado por R$/@ x 330. Ou seja, cada variação de R$1,00 na cotação do contrato futuro de boi gordo corresponde a R$ 330,00 por contrato.

A operacionalização nos mercados futuros se dá através da utilização de margens, que essencialmente são um percentual do valor da operação e que são utilizadas como um mecanismo que oferece garantias de que os compromissos serão honrados. As margens definem o grau de alavancagem em um determinado mercado e variam de acordo com as mercadorias e ativos financeiros, de modo a refletirem os riscos associados.

Por exemplo, suponha que em 11/08/2009 um hedger tenha vendido um contrato futuro de boi gordo ao último preço cotado do contrato com vencimento em outubro (R$ 83,40/@). Assim o volume financeiro resultante da venda de um contrato teria sido de R$25.522,00. Por se tratar de um valor que virá a ser recebido no futuro, i.e., a cotação poderá estar abaixo (o que daria lucro para o vendedor) ou acima (acarretando em prejuizo para o vendedor), uma margem inicial é então requerida, que no caso seria de R$ 965,11 por contrato, o que significa uma alavancagem de 1 para 28,5. Ao final de cada pregão, a BM&F determina o preço de ajuste para cada contrato em aberto, sobre o qual será feito o ajuste diário de todas as posições. O valor do ajuste diário (ADt), se positivo, é creditado ao titular da posição compradora e debitado ao titular da posição vendedora. Caso o valor seja negativo, será debitado ao comprador e creditado ao vendedor.

O ajuste diário das posições no dia em que é fechado o negócio se dá de acordo com a fórmula abaixo:

ADt = (PAt – PO) × 330 × n

onde: ADt = valor do ajuste diário;
PAt = preço de ajuste do dia;
PO = preço da operação;
n = número de contratos;

No exemplo, o preço de ajuste em 11/09/2009 foi de R$ 83,56/@, logo: ADt = (83,56-83,40) × 330 × 1= 52,8. Portanto, haveria um débito na conta margem (pois a posição é vendida), que passaria a ser (no dia 12/08) de R$ 912,31, após o ajustamento.

Já as posições em aberto se ajustam de acordo com a fórmula:

ADt = (PAt – PAt–1) × 330 × n

onde: PAt–1 = preço de ajuste do dia anterior.

Continuando o exemplo, vamos supor que ao final do dia de hoje (12/08) a cotação de ajustamento venha a ser de R$ 83,10. Neste caso, o ajuste será de: ADt = (83,10-83,56) × 330 × 1= -151,8. Portanto, haveria um crédito na conta margem, que passaria a ser (no dia 13/08) de R$ 1.064,11.

Vale notar que o mesmo se aplica aos contratos financeiros. Por exemplo, um importador pode adquirir contratos futuros de dólar com o intuito se proteger ante a uma determinada desvalorização do real em relação ao dólar.

Os iniciantes podem entrar no simulador da BM&F (entra link: http://simulador.bmf.com.br/), no qual recebem R$150.000,00 fictícios para participarem de um torneio que poderão ser utilizados em diferentes mercados futuros. É uma maneira divertida e prudente de ir se familiarizando com o funcionamento dos mercados futuros.


Paulo C. Coimbra (FUCAPE Business School) escreve no Blog do Cristiano M. Costa todas as quartas-feiras e escreve mensalmente uma coluna sobre Derivativos na InfoMoney, às terças-feiras.

Saúde Pública: Cigarro

O Adolfo Sachsida escreveu um artigo que saiu no Globo Online sobre a nova lei anti-tabagismo. As novas leis em vigor determinam o fim do consumo do cigarro em ambientes fechados. Conclui o Sachsida:
Enfim, o mercado é capaz de fazer tal alocação. Assim, não cabe ao Estado legislar sobre o uso do fumo dentro de estabelecimentos privados.

Bom, o ponto é que não só cabe ao estado, como ele legisla. Está entre as prerrogativas do estado de direito esse tipo de proibição. A questão que eu levantaria, no lugar do Sachsida seria: é eficiente (do ponto de vista alocativo) que o estado faça uso da lei para este tipo de questão? O Sachsida argumenta:

Assim, melhor do que o Estado legislar sobre o fumo dentro de estabelecimentos privados seria deixar o próprio mercado fazer tal escolha. Bastaria a cada estabelecimento dizer na entrada: "Aqui fumar é proibido", ou então "Aqui fumantes são bem-vindos", ou ainda "Aqui temos lugares reservados a fumantes". Dessa maneira, caberia ao cliente escolher o estabelecimento que melhor se adeque a suas necessidades e preferências.

Ponto para o Sachsida. Certamente, se levarmos em conta somente esses efeitos diretos o mercado chegaria a uma alocação mais eficiente.

Porém, o argumento exclui toda a externalidade por trás do consumo do tabaco*. Não só o fumo atinge diretamente os outros consumidores do restaurante, mas também os bolsos dos outros consumidores que nem vão ao restaurante, via aumento de impostos para financiar a Saúde, que no Brasil é pública.

Na medida que o governo elimina essa possibilidade ele não interfere muito na escolha dos consumidores, na medida que nenhum restaurante poderá diferenciar seu serviço por oferecer áreas de acesso aos fumantes (exceto os que tem área aberta, estes ganham). Afeta sim, a escolha do consumidor de ir ao restaurante.

Um efeito adicional é a tendência estatística que aponta o seguinte: quanto maiores os custos sociais para o fumante (ficar sem fumar) maior a probabilidade de que ele abandone o tabajismo. Aqui na Philadelphia, não só você não pode fumar em ambientes fechados, como você tem que se deslocar vários metros da entrada do local. Essa medida apontou que, em um prazo maior e com maiores obstáculos, o consumo do tabaco tem diminuído.

Por fim, não se pode deixar de levar em conta o benefício privado do fumante, que chega a ganhar cerca de 3 anos em sua expectativa de vida, um ano após deixar de fumar. Esse benefício, em um modelo tradicional neoclássico deveria estar na função utilidade e ser internalizado já na conta do fumante. Mas em um modelo mais sofisticado e mais behavioural (sim, pode chamar de heterodoxo) esse indíviduo teria suas escolhas afetadas/distorcidas pelo vício social (ficar segurando o cigarro) e dependência física causada pela nicotina.

Então, se o estado pensa que pode diminuir o custo da saúde, causar poucas distorções no consumo nos restaurantes, diminiur a dependência e aumentar a expectativa de vida, e diante de tantas imperfeições de mercado, não vejo porque o Estado não teria incentivos para combater o fumo.

Fica aí o meu contraponto.

* = O Sachsida, no artigo, admite a existência de externalidades. Mas acho que o ponto dele nem passa pela eficiência alocativa, e sim pela questão da liberdade que está sendo retirada dos fumantes.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Segurança Pública

Quando pensamos em segurança pública, pensamos logo em um aumento de bem-estar por não corrermos risco de vida e não sermos roubados. Só essa ausência da probabilidade de perda da vida ou de diminuição da nossa riqueza já é excelente.

Mas há um outro efeito: o aumento da riqueza. Quando há mais segurança, as propriedades se valorizam mais. Em um ambiente de muita insegurança, um pequeno aumento do policiamento pode gerar um alto valor. Quer um exemplo? Do Globo Online:
O mercado imobiliário das favelas ocupadas pela polícia já sente os efeitos da valorização. As variações no valor de venda dos imóveis oscilam entre 30% e 400%. No Santa Marta, moradores acham que o céu é o limite. Uma casa de alvenaria, que era negociada por até R$ 10 mil no tempo em que muitos deixaram a favela por causa do tráfico, agora é vendida por R$ 50 mil. Um corretor que trabalha nas imediações há pelo menos cinco anos diz que só agora foi, pela primeira vez, à ladeira de acesso ao Santa Marta, para mostrar imóveis.

Ou seja, todo esse aumento de riqueza deveria ser contabilizado na hora que os governantes pensam em políticas públicas. Mais ainda, existe toda a receita do imposto que pode ser arrecadado quando há uma transação de imóveis e também o IPTU que será cobrado.

Faz todo sentido, não?

Economia do Supermercado

O pessoal do Pensando Economia escreveu um post sobre a política semanal de preços dos supermercados. Segundo eles, os preços são mais baixos na quarta-feira do que no fim de semana. A explicação seria a queda de demanda na quarta-feira, já que as pessoas teriam mais tempo nos fins de semana.

Mas no fim do post, acabam justamente afirmando que a demanda não cai tanto, pois as pessoas antecipam a queda de preços e acabam esperando até a quarta-feira para fazer as compras.

Essa análise até faz algum sentido, mas o que ocorre muitas vezes é uma política de estoques. Os produtos novos chegam na quinta-feira, para a venda no final de semana. Portanto, o supermercado precisa se livrar das frutas, verduras, e outros produtos perecíveis e que ocupam espaço, para que os novos possam ser alocados nas prateleiras. É basicamente uma pequena sazonalidade no preços, devido ao ajustamento do estoque. A queda de preço reflete o custo de etoque e a menor qualidade do produto.

Muitas vezes, nós economistas (incluindo eu, que não sou economista, apenas bacharel) acabamos esquecendo conceitos básicos de alocação de recursos, achando que isso é coisa de administrador de empresas e que é simples demais para nos preocuparmos. Mas, coloque um custo de ajustamento em um modelo econômico para ver como o resultado muda.

Por outro lado, a decisão de preços pode ser mais complexa do que os modelos mais tradicionais de economia determinam. Lembrei, por exemplo, de um artigo do Luis Henrique Braido (EPGE), sobre as promoções semanais que os supermercados fazem. Muitas vezes é apenas uma estratégia randômica, para confundir a concorrência e evitar que os outros supermercados antecipem a sua política de preços (PDF AQUI).

Fica aí então a minha pequena crítica e auto-crítica.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Debate Macroeconômico

Recentemente um debate na The Economist (que se extendeu pela blogosfera econômica brasileira AQUI e AQUI) sobre o atual estado da teoria macroeconômica moderna desencadeou uma importante reflexão: Qual a verdadeira utilidade, ou real papel, dos modelos macroeconômicos modernos (leia-se RBC e DSGE)? Além disto, o que aprendemos com as novas teorias de Finanças Internacionais?

Bem, eu não sou a pessoa mais recomendada para responder esta perguntas. Mas quando não sabemos a resposta, devemos procurar por ela. E eis que Robert Lucas entra na discussão e o debate se acirra (AQUI).

Confira o Início, a Réplica, e várias Contra-Réplicas (atualizado)...

Boa Leitura!

PS: Dica do Jaime de Jesus Filho (lá de Chicago)

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Contratos Futebolísticos III

Seguimos na discussão. Hoje eu vou só largar algumas idéias que estão pipocando por aí e comentar sugestões que recebi.

1) Finanças dos Clubes

A Fifa, entidade que controla o futebol mundial, baixou circular na qual põe o saneamento financeiro dos clubes como um pré-requisito para que eles possam disputar campeonatos (TricolorMania).

A Fifa está tentando criar um marco regulatório para os clubes, visto a situação que ocorre na Argentina e em outros clubes pelo mundo. A idéia é criar uma grande Lei de Responsabiliade Fiscal para clubes. Esse assunto é novíssimo e voltaremos ao tópico. Mas a idéia é simples, para disputar competições internacionais os clubes terão que manter finanças em dia, incluindo pagamento de salários, dívidas com clubes estrangeiros e governo. Pode ter a dívida, mas tem que estar pagando em dia e trabalhando para diminuí-la até um determinado nível.

2) Salary-Cap

Eu havia sugerido um salary-cap no meu último post. A maior crítica é a de que o cap expulsaria os bons jogadores ou acabaria sendo alto demais e não adiantaria nada. É uma excelente crítica. A proposta pode ser melhorada da seguinte forma. Faz-se um salary-cap endógeno. Por exemplo, um clube não pode gastar com salários mais do que 75% da sua receita anual. Assim, os clubes teriam não só incentivos para negociarem melhores salários mas também teriam incentivos para aumentar as receitas via quadro social, que é uma receita menos volátil. Fica aí a sugestão. Não concordo plenamente, mas deixo aqui espaço para a crítica. A melhor solução seria um salary-cap na Europa.


3) Mudança de Calendário

O presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ricardo Teixeira, disse, em entrevista aos jornais O Estado de S.Paulo, Folha de S.Paulo e O Globo, que está negociando a adequação do calendário nacional ao calendário europeu. Porém, o dirigente disse que não há previsão da mudança. (Terra)

A idéia vem tarde. Clubes que disputam a Libertadores, em tese os melhores, são prejudicados com o calendário atual. Jogadores desses clubes se destacam na competição e acabam sendo vendidos na janela do meio do ano. O caso mais recente é o do Ramires do Cruzeiro. No meio do Brasileiro, os times mudam completamente.

Quem se opõe à mudança em geral usa o argumento que o público seria menor, já que coicidiria com o período de férias escolares. É verdade. Mas imaginem vocês, um Fla-Flu no domingo depois do Desfile das Campeãs, um Gre-Nal no fim de semanda antes do Natal, etc. Tudo se ajusta se houver um bom senso e planejamento. Aqui na NFL certos times sempre jogam na véspera do Thanksgiving. Claro, há o problema da temperatura em Janeiro e Fevereiro. Mas pode ser feita uma pausa no campeonado, na Europa isso também ocorre. Outra possibilidade são jogos no sábado pela manhã, no estilo campeonato italiano que dava na Band antigamente. Ou ainda, no sábado as 20h, etc. Enfim, pode-se sim fazer um campeonato nesse período.

A mudança seria fundamental para melhorar as finanças dos clubes, manter os jogadores por mais tempo, e ainda colocaria a Libertadores ali no final do Brasileiro, possibilitando aos times manterem seus plantéis e chegarem com ambição total na competição.

Ficam aí algumas digressões sobre contratos futebolísticos.

Taxa de Desemprego nos EUA

Até que enfim um dado positivo no mercado de trabalho. De acordo com o relatório do Departamento de Trabalho aqui dos EUA 247,000 empregos foram fechados em Julho, um número menor do que os 443,000 de Junho e menor também do que os 325,000 previstos pela mediana do mercado (AQUI).

A taxa de desemprego caiu de 9,5% para 9,4%.

É um número que vai trazer alívio aos mercados. Mas, grande parte desse resultado está no aumento de emprego no governo, aposentadorias, etc. Pessoas que saem do mercado de trabalho, e também de pessoas que postergam a entrada.

O fator mais importante para uma retomada aqui nos EUA é o consumo do americano. Esse item constitui algo entre 65% e 70% do PIB americano. Enquanto o consumidor não abrir a carteira e puxar uns cartões de crédito, dificilmente a economia voltará a crescer novamente.

Entretanto, do total de 787 bilhões de dólares que o governo americano vai usar para criar empregos, "apenas" cerca de 80 bilhões serão gastos esse ano. O resto fica principalmente para 2010. Ou seja, o governo ainda vai ajudar muito a economia no início do ano que vem.

É esperar pra ver...

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Otimismo, Mas...

Segundo a pesquisa ISE (Índice de Sentimento dos Especialistas em Economia) da Fecomercio em parceria com a Ordem dos Economistas do Brasil, os economistas estão mais otimistas do que no mês passado. O idicador cresceu 4%.

Dos nove índices, 6 estão no patamar otimista:
Cenário internacional: 145,2 pontos;
Nível atividade interna - PIB: 145 pontos;
Taxa de câmbio: 123,7
Oferta de crédito ao consumidor: 115,2 pontos;
Nível de Emprego: 111, 6 pontos;
Taxa de Inflação: 105,4 pontos;

E três estão no cenário pessimista:
Salário reais: 89,9 pontos;
Taxa de juro: 78,9 pontos;
Gastos públicos: 33,3 pontos.

Interessante como os gastos públicos parecem ser um problema claro às vistas da maioria dos economistas e mesmo assim ninguém fala nada na imprensa especializada.

Leia mais sobre o ISE clicando AQUI.

Poupança = Recorde

A caderneta de poupança é a nova mina de ouro do pequeno investidor brasileiro. Do G1:
A caderneta de poupança registrou o ingresso (diferença entre depósitos e retiradas) de R$ 6,67 bilhões em julho deste ano, o maior resultado desde dezembro de 2007, quando houve a entrada de R$ 9,13 bilhões na modalidade de investimentos, segundo números divulgados nesta quinta-feira (6) pelo Banco Central (BC).

Já havíamos antecipado aqui no blog que esse podeira ser um efeito colateral da queda da SELIC. A questão que fica agora é: o que o governo fará? Existem poucas alternativas:

1) reduzir o rendimento garantido da poupança,
2) taxar a poupança, e
3) reduzir o IR dos fundos de investimento.

O grande problema da saída de investidores dos fundos de renda fixa para a poupança seria a maior dificuldade de o governo vender seus títulos públicos, já que os fundos de renda fixa são compradores nesse mercado.

A alternativa que parece estar ganhando força é a 2). O governo estuda taxar os rendimentos dos poupadores que colocarem mais de 50 mil na poupança, e não vai adiantar colocar 50 mil em uma conta e 50 mil em outra.

Fica aí o debate...

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Mercado Futuro: DI vs. Dólar

Se um trader acredita que haverá uma elevação no spread que existe entre a taxa de juro (aqui entendida como o DI de 1 dia) e a taxa de câmbio (real em relação ao dólar) até o vencimento dos contratos então ele deverá comprar contratos futuros de DI e vender contratos futuros de dólar.

Consideremos os dados de ajuste do mercado do dia 04/08/09, dos contratos com vencimento em 01 de setembro de 2009:

- A cotação da taxa de juro (considerando o PU de ajustamento) é de 8,6199% a.a. (taxa DI over de 0,0328%), o que embute uma taxa de juro efetiva de 0,6584% até a data do vencimento;

- A cotação do dólar comercial (em R$/US$1,000.00) é de R$1.832,198. Considerando a cotação de ajustamento no mercado à vista R$1.8240,000, o que indica uma expectativa de desvalorização cambial de 0,4495% até a data do vencimento.

Desse modo, o spread entre a taxa de juro efetiva e a expectativa de desvalorização do dólar até a data do vencimento dos contratos está em (1,006584/1,004495-1)x100 = 0,208%.

O número de contratos de dólar que deverão ser vendidos para cada contrato de taxa de juro comprado é dado pela fórmula abaixo:

Contratos dólar = (taxa de juro x valor contrato) / (dólar futuro x valor contrato) = (8,6199 x R$100.000,00) / (R$1.832,198/US$1,000.00 x US$50,000.00) = 9,41.

Assim, se um trader compra, por exemplo 1 contrato de DI1 então deveria vender 9,41 contratos de dólar, ao spread de 0,208%. Ressalve-se que, na prática, não é possível vender 9,41 contratos de dólar, sem falar que alguns custos de transação também serão incorridos (tais como corretagens, emolumentos, etc.).

Suponhamos que, de fato, o spread na data de vencimento se eleve, por exemplo, devido tanto a uma elevação da taxa de juro para 8,6427% quanto em decorrência de uma valorização do dólar (tanto relativamente à cotação do futuro quanto em relação ao mercado à vista) que no vencimento passa a ser cotado em R$1,82.

Desse modo, no mercado futuro de taxa de juro teríamos um ganho de:
(8,6427-8,6199) x R$100.000,00 = R$2.280,00

Por sua vez, o ganho no mercado de dólar seria de:
R$(1,832188-1,82)/US$ x US$50,000.00 x 9,41 = R$ 5.739,16

Portanto, os ganhos totais seriam de R$8.019,16.

Um ponto importante que deve ser lembrado é que os ajustes nos mercados futuros, sejam referentes aos ganhos bem como em relação às perdas são ajustados diariamente, e não somente no vencimento dos contratos. Oportunamente discutiremos mais detalhadamente sobre o funcionamento dos mercados futuros, especialmente do mecanismo de ajustes diários, conhecido como margens.


Paulo C. Coimbra (FUCAPE Business School) escreve no Blog do Cristiano M. Costa todas as quartas-feiras e escreve mensalmente uma coluna sobre Derivativos na InfoMoney, às terças-feiras.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Regulação Financeira

O desenho de um novo sistema regulatório para instituições financeiras está no centro do debate econômico nos Estados Unidos. Autoridades e o público em geral entendem que há a necessidade de maior controle das atividades de bancos, fundos e empresas seguradoras. O objetivo, claro, é evitar a ocorrência de novas crises sistêmicas como esta a qual estamos enfrentando. Eu, particularmente, sou bastante cético a respeito da eficácia destes marcos regulatórios. Em grande parte, diversas inovações financeiras ocorridas na última década, muitas das quais têm sido apontadas como responsáveis pelo debacle do sistema financeiro americano, resultaram do esforco de instituições financeiras em evitar custos, requerimentos de capital e outras facetas da regulação. Este processo é conhecido como “arbitragem regulatória”.

O atual marco regulatorio sobre bancos comerciais, a Basiléia II, é deficiente porque não cumpre a função elementar de alinhar incentivos privados e sociais. A Basiléia II basicamente determina que bancos devem possuir capital próprio compatível com o perfil de risco de seus ativos. O principio básico é de que, ao garantir a estabilidade de cada instituição individualmente, o sistema como um todo torna-se estável. Esse raciocínio intuitivo trata-se, na verdade, de uma falácia de agregação. Quando o preço de um ativo despenca, a resposta esperada de um banco que segue os padrões da Basileia II é a venda de outros ativos para reduzir a alavancagem e readequar seu capital. Contudo, isso força para baixo o preço destes ativos, afetando negativamente outros bancos. Em certas circunstâncias, estes efeitos secundários são potentes e criam crises sistêmicas. O problema central da Basileia II é o seu foco exclusivamente microeconômico - instituição por instituição - sem levar em conta aspectos macroeconômicos como o ciclo de expansão e contração do crédito. Um novo sistema regulatório deve basear-se, também, no pilar macroeconômico.

Com isso em mente, eu sugiro, de forma bastante especulativa, um marco regulatório diferente, uma espécie de “cap-and-trade” para o sistema financeiro. O banco central cria uma licença para alavancagem ajustada pelo risco. Instituições financeiras são obrigadas a adquirir um montante de licenças compatível com o seu perfil de risco. O banco central inicialmente faz um leilão destas licenças no mercado e, posteriormente, monitora o preço das mesmas. Os recursos arrecadados são depositados em um fundo a ser usado pelas autoridades para socorrer instiuições com dificuldade de liquidez. Sempre que um banco quiser aumentar seu perfil de risco, ele é obrigado a comprar licenças adicionais no mercado secundário. O banco central pode expandir ou contrair a quantidade de licenças usando um mecanismo semelhante a operações de mercado aberto.

Quais as vantagens desta proposta? Primeiro, leva em conta a heterogeneidade das instituições financeiras, permitindo que cada qual escolha seu perfil de risco desde que pague o preço por isso através das licenças (internalizando as externalidades). Segundo, cria os recursos a serem utilizados no socorro do sistema através da “taxação” do próprio sistema. Terceiro, o preço das licenças passa a ser uma nova variável contendo informações importantes a respeito do ciclo de crédito. Quarto, o banco central pode utilizar leilões para controlar a expansão do crédito durante a euforia e reduzir a velocidade de desalavancagem durante as crises, estabilizando os mercados. Quinto, o banco central ganha maior liberdade para condução da política monetária, dado que possui um instrumento para controle dos juros e outro para controle do crédito - muito embora essa liberdade não seja plena, dado que juros e volume de crédito são determinados conjuntamente em equilíbrio.

Numa proxima oportunidade apresentarei idéias de como determinar a medida de alavancagem ajustada pelo risco a ser utilizada como referência para as licenças. Obviamente, esta proposta é bastante preliminar e contém inúmeros pontos ainda obscuros. Aguardo os comentários e sugestões dos leitores para reforçar ou refutar os argumentos.

Tiago Severo é doutorando em Economia na Harvard University.

domingo, 2 de agosto de 2009

Contratos Futebolísticos II

Primeiro, leia isto (do UOL):
Luiz Gonzaga Belluzzo criticou os gastos salariais cada vez mais altos dos clubes com treinadores e atletas. "Uma ação conjunta dos clubes pode brecar isso. Nós somos o mercado", disse ele.

Ele está certo. Os clubes são o mercado. Vou tentar explicar porque a idéia do Belluzzo não é nova e é muito boa.

Duas das maiores distorções do futebol mundial são os altos salários das estrelas e a alta variância dos salários entre jogadores de um mesmo time. Ou seja, o centroavante ganha 300 mil dólares por mês, e o lateral-esquerdo ganha 30 mil. Acontece que o centroavante só faz gols de cabeça se o lateral cruzar bem. E aí temos exatamente o problema que você está pensando.

O salário pode ser dividido em uma parte que é a contribuição individual do jogador e outra que é a contribuição dele para o time. Se o camarada dribla o time inteiro e faz o gol, a jogada é mais individual do que coletiva. Se ele escora um cruzamento estando livre dentro da pequena área, é mais coletivo do que individual.

Na ausência de um teto salarial, cada vez que você aumenta o salário do centroavante, por algum motivo ou por outro, terá que aumentar o do lateral. Se não isso pode "rachar" o grupo, para usar uma expressão futebolística. Ou seja, o lateral começa a fazer corpo mole. E outra, isso gera uma competição entre os clubes de modo que a estratégia ótima é sempre se endividar e aumentar o salário dos dois. Mesmo que depois você não consiga pagar.

Dentro de campo, o futebol americano é similar. Dificilmente o jogador faz uma jogada sem alguém ter feito um bloqueio, ou chamado a atenção da marcação. Mas fora de campo, na hora de receber, a coisa é diferente. Na NFL também existe uma varância de salários. Mas bem mais branda. O ponto todo está no sistema de salary cap.

O salary cap funciona assim. Cada time pode gastar no máximo X dólares em salários por ano. E dentro do time, esse valor é distribuído como o time quiser. Acontece que o quarterback sabe que se ele não tiver uma boa proteção ele não consegue passar a bola. Então ele aceita um salário mais baixo para jogar em um time onde os jogadores de proteção são melhores. Logo, o salário destes aumenta. Há muitos casos de jogadores que aceitam reduções de salários para que um companheiro seja contratado. E de times que renegociam contratos para manter um outro que se destacou, aumentando o seu salário.

O mais legal do salary cap é que além de diminuir a variância dos salários dentro do clube, ele cria um certo salário máximo individual. Por exemplo, se X é igual a 100 milhões de dólares, dificilmente será distribuido 70 milhões pra um jogador e 30 milhões aos demais.

É uma regulação simples e que impede uma competição sem fim que acabaria com as finanças dos times. Eles se reunem e concordam que acima de X é demais para todos, e assinam um papel acertando isso. É claro, isso é feito em comum acordo e só é factível dentro de uma liga privada, com direitos de propriedade bem definidos.

Eu acho que seria uma opção interessantíssima para a CBF implantar nas Séries A e B do Brasileirão, por exemplo. Não sei se isso seria factível do ponto de vista legal, etc.

PS: Essa competição entre clubes é parecida com a guerra fiscal que ocorre com o ICMS nos Estados brasileiros, vocês não acham?