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terça-feira, 23 de junho de 2009

Amor Pela Indexação

Vou me atrever a dizer que a inflação não será o problema brasileiro em 2009. Pelo que tudo indica, a inflação medida pelo IPCA ficará muito próxima do centro da meta: 4,5%. Pelo IGP-M, a taxa será algo em torno de 1,8%, talvez menos com o novo nível do dólar. Esses números não são somente meus, mas da média do pessoal do mercado (AQUI).

Mas não se esqueçam que o teto da meta é 6,5%. Ou seja, o BC ainda tem uma certa banda para acomodar choques de demanda, que devem aparecer no último trimestre se tudo correr bem. Isso implica que a inflação está sob controle.

Um problema que afeta a economia brasileira, na minha opinião, é esse amor pela indexação. Essa é uma das piores heranças do período inflacionário. Todas as classes trabalhadoras, empresários, etc, usam a inflação passada como base de cálculo para futuros contratos. Todos pedem uma equiparação, uma recomposição, etc. Acho que as pessoas não entendem que salários e preços podem sim diminuir, em termos reais. E isso é normal em economias dinâmicas.

Talvez esteja aí a explicação para o conservadorismo do BC. Ou melhor, talvez esteja aí a falta de compreensão da política de juros por parte de alguns setores, especialmente da indústria. Em tese, o BC poderia continuar com um nível de juros mais baixo. Mas como a indexação carrega parte da inflação passada, a política tem que ser um pouco mais conservadora. Uma pena.

Particularmente, nunca vi nenhum contrato indexado à taxa de inflação aqui nos EUA. Todos contratos são renegociados ao seu final, especialmente os de aluguéis. Com raras exceções.

Eu aceitei o desconto que me deram e estou ficando no meu apartamento. Um vizinho nosso queria um desconto maior, barganhou e perdeu. Agora está atrás de apartamento e até deve arranjar algo mais barato mesmo. Mas, o custo de mudança não deve ter entrado na conta. Eu odeio me mudar.

Enfim, o ponto é que uma economia menos indexada faria bem ao Brasil. Não sei como seria posssível implementar isso, se é cultural ou é algo passível de legislação (como o caso da proibição dos contratos em moeda estrangeira). Mas, se eu fosse do BC eu estudaria o assunto.

4 comentários:

Roberto disse...

Nao sei qual serah o efeito liquido do fim da indexacao. Se por um lado vc nao tem indexacao nos contratos americanos, em qualquer contrato os individuos estao estimando a taxa real de retorno dada uma previsao de inflacao. Considerando que a incerteza eh maior, vc provavelmente inclui tambem um premio de risco por parte dos individuos expostos a perdas por inflacao. No final, os precos acabam subindo de antemao... Sem falar no problema de prever como as pessoas vao fazer tais previsoes de inflacao futura (e qual o impacto da inflacao passada na expectativa futura de inflacao... vamos ver agora com o Obama a lambanca que a galera vai fazer quando a inflacao comecar a subir pra amortizar toda essa divida publica)...
Bem, soh resolvi fazer aqui o papel de advogado do diabo, pois ateh o saldoso milton friedman nao achava a ideia das piores...

Grande Abraco,

Roberto

P.S.: Dah uma checada no spelling (acho que eh compreensao ao inves de compreencao, mas portugues depois de anos por aqui vai indo pro brejo mesmo, heheheh)

Cristiano M. Costa disse...

Valeu, arrumei lá.
Sim, o ponto está correto. Mas o grande lance é que com o fim da indexação, a expectativa de inflação do relatório Focus, por exemplo, vai ter papel mais importante. E assim, o efeito do juros na expectativa será mais importante do que o efeito do juros passados na inflação passada. Eu acho que isso aumenta o power da política de juros...

Falou

Anônimo disse...

`Todas as classes trabalhadoras, empresários, etc, usam a inflação passada como base de cálculo para futuros contratos. Todos pede uma equiparação, uma recomposição, etc. Acho que as pessoas não entendem que salários e preços podem sim diminuir, em termos reais.`

1) as pessoas nao entendem
ou
2) as pessoas agem conforme seu melhor interesse e o resultado disso e a indexacao.

pra mim ta parecendo que vc ta olhando a conclusao (americanos indexam menos que brasileiros) e fazendo disso uma hipotese (brasileiros entendem menos do processo de evolucao do precos)

abraco

Cristiano M. Costa disse...

Não,
são duas coisas em uma. O fato da tradição de inflação alta ter criado mecanismos culturais que protegem quanto a inflação alta cria a ilusão que esse mesmo mecanismo(indexação) deve também ser usado quando a inflação é baixa e queda de preços nominais são mais frequentes. Daí, a falta de compreensao.
Falou