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segunda-feira, 23 de março de 2009

Sobre a Natureza das Instituições

Por que a recente crise financeira americana foi tão devastadora?

Estimativas iniciais indicavam que as perdas com os papéis atrelados a hipotecas eram da ordem de 500 bilhões de dólares, números revisados posteriormente para algo entre 700 bilhões e 1 trilhão. Dado que, antes da crise, o valor do mercado acionário americano era proximo a 16 trilhões de dólares, as perdas com papéis hipotecários foram equivalentes a uma queda de 6% nas bolsas americanas.

Meses ou mesmo semanas nas quais as bolsas americanas amargaram perdas de 6% ou mais não são incomuns na história recente. Portanto, vez por outra o sistema financeiro americano viu-se diante de perdas semelhantes as atuais. O que diferenciou a atual crise de flutuações passadas foi a natureza das instituições atingidas.

Quando bolsas caem, as perdas são dissemidas por inúmeros investidores: bancos, fundos de pensão, empresas seguradoras, investidores individuais. As perdas com papéis hipotecários, ao contrario, foram particularmente concentradas em bancos de investimento. Como estes bancos estavam demasiadamente alavancados, tais perdas aniquilaram seus respectivos capitais próprios, levando instituições à falência e disseminado pânico entre os investidores. O restante da história é conhecido por todos.

Uma lição importante que retiramos deste episódio diz respeito à forma de financiamento empregada na economia. Economias que se baseiam em alavacangem elevada, principalmente no sistema financeiro, ficam expostas a riscos sistêmicos que eventualmente redundam em crises financeiras agudas. Financiamento via participação acionária, por outro lado, permite a economia disseminar perdas e evitar riscos sistêmicos. Esta premissa deve guiar a reconstrução do sistema financeiro nos Estados Unidos e em outros países.

Tiago Severo (Aluno de Ph.D. em Economia da Harvard University)

3 comentários:

fábio pesavento disse...

Com o Tiago o blog conta com um grande colaborador...

Falcao disse...

Opa,
Tiago, onde é que Modigliani-Miller tá errado? Qual a hipótese que fode com tudo, na tua opinião?

Acho que boa parte da crise tem causa em erro de precificação grave por parte de dito especialistas. Além de modelos errados, tem um problema sério na relação entre agências de ratings e companhias.
abs

Anônimo disse...

Falcao,

Um dos problemas centrais eh a coordenacao entre credores no momento de crise. O credor indidual do banco em dificuldades esta tentando pegar carona nos demais credores. Se todos os outros aceitarem reduzir o valor dos seus creditos para recolocar o banco em funcionamento, o melhor que eu tenho a fazer eh refutar qualquer renegociacao e manter o valor dos meus creditos. A lei estah ao meu lado neste caso.
Claro que todos pensam da mesma forma e portanto a coisa nao anda. Eh dificil botar todos os credores na mesa para negociar.

Mas concordo contigo a respeito dos outros problemas. A questao eh que estes problemas sao muito mais graves quando ocorre um excesso de alavancagem no sistema. Eh precisamente neste cenario que as agencias de rating passam a ser mais importantes, criando margem para o moral hazard que tu bem colocaste.

Abs,

Tiago