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terça-feira, 10 de março de 2009

Gold Farmers

A blogosfera se agitou com os Gold Farmers, o Leo postou, o Philipe analisou e o Shikida deu até referências. Então, resolvi palpitar também. Pra dar graça, eu vou ser do contra. Lá vai (mas para entender primeiro leia o post do Philipe clicando AQUI):

Como diz o Philipe, não precisa ter um MBA em Wharton para se descobrir novos mercados (achei excelente a frase). Especialmente se for ilegal. Essa atividade, até onde eu entendi é ilegal. Na medida que o sujeito precisa ter uma conta Paypal nos EUA. Mas deixo isto de lado (não deveria...). Vou bater em outro ponto.

O serviço em si (trabalho na internet) não é um novo mercado. Muitos web designers já fazem isto há anos. Basicamente, você vende o seu serviço pela internet e recebe de alguma maneira. Algumas destas transações não são reguladas, ou legais. Mas sigo...

Uma forma interessante de ganhar dinheiro na internet é via Second Life. Aquele jogo que imita a vida. Muita gente ganha dinheiro com especulação imobiliária, criando roupas e outros serviços dentro do jogo. O Second Life é ainda mais legal, pois empresas reais participam. Por exemplo, você pode entrar na loja da Adidas no Second Life e comprar uma roupa da Adidas por seu avatar (seu bonequinho). Tá aí um resultado que eu queria saber, qual o resultado do marketing no Second Life nas vendas dessas empresas?

Os Gold Farmes são apenas pessoas que vendem o trabalho a um preço baixíssimo em um mercado que sempre existiu: o de serviços pela internet. A questão é que eles se especializaram em algo específico, jogar Warcraft e jogos similares.

Esse mercado existe no Brasil há muito tempo (desde que o jogo existe, basicamente). Inclusive há casos de pessoas foram sequestradas em lan-houses no Rio de Janeiro para ter a sua conta virtual transferida para bandidos. O grande ponto dos Gold Farmers no vídeo é que o preço deles é quase zero. Inclusive, nota-se que as condições de trabalho são, digamos, precárias.

Enfim, concordo que é bonito a oferta sendo criada para atender a demanda e tal. Mas, quero deixar claro que não achei nada de novo. Aliás, apenas confirmei um pensamento antigo: alguns povos derivam pouquíssima utilidade do lazer e das condições higiênicas do ambiente que vivem/trabalham.

É uma questão de preferências e custo marginal quase zero. Na medida em que preferências são heterogeneas, é natural que apareça alguém prestando um serviço a preço quase zero. Em alguns lugares essas pessoas aparecem com mais freqüência do que em outros...

PS: os posts são em si interessante, é óbvio, trazem um aspecto econômico e o vídeo é bem legal. Mas eu só queria fazer o ponto que o mercado não é novo, e que preferências são heterogeneas (ainda vai acento nisso?).

11 comentários:

simplesnotas disse...

oi, cristiano!
concordo totalmente com seu ponto! no entanto, eu gostaria de deixar claro que, apesar de ser um mercado antigo, em algum momento da história ele não existia e, por consequência lógica, ele um dia foi novo. eu fiquei empolgado com a história não por que o mercado para gold farmers é novo, mas sim por que, certo dia, um chinês humilde e sem educação formal percebeu a chance de entrar no então novo mercado!
um abraço!

Leonardo Monasterio disse...

Oi Cristiano,

Como sou velho, quase tudo criado na ultima decada eh fantastico-incrivel-estraoridinario. Inclusive gold farmers. Perdoe-me por isso.
Mas tb pq sou velho, eu nao diria que: "alguns povos derivam pouquíssima utilidade do lazer e das condições higiênicas do ambiente que vivem/trabalham".
O velho modelo de lewis nos lembra do que eh viver com oferta ilimitada de trabalho. Nao eh pq as preferencias sao heterogeneas que o sujeito ganha uma miseria. O cara ganha a subsistencia pq sobra trabalho e a produtividade marginal to trabalho eh bizarramente baixa. Ainda, a historia mostra que melhoria das condicoes de trabalho eh lazer sao um fenomeno novo no ocidente, com menos de 100 anos. Enfim, a diferenca nao estah nos atributos dos "povos" e sim no k. Abracos,
Leo.

<b> Cristiano M. Costa </b> disse...

Entendo seu ponto Philipe. Obviamente o mercado foi novo em algum momento. Mas os primeiros a notar isto foram os usuários do jogo.

O ponto todo é que os chineses fazem isso em larga escala e com outra finalidade (fazer dinheiro).

Qualquer pessoa com conhecimento mais avançado de computador tem oportunidades de fazer dinheiro com a internet. O mais surpreendente não é ele "não ter educação" ou parecer "humilde", o mais surpreendente é o governo chinês ainda não ter pego esses caras pra trabalhar de hackers pra eles...será que eles usaram esse videozinho pra se promover?

Mas tá bom o debate. Abraço!

<b> Cristiano M. Costa </b> disse...

Oi Leo,
olha eu não sei quem é o Lewis, mas imagino que viver em um mundo qem que a oferta de trabalho é infinitamente elástica deve ser um saco.

Você tem razão o salário médio na China é baixo porque tem muito L e pouco K.

Os meus pontos eram: 1) o mercado não é novo, 2) eles se especializaram em algo (talvez por causa das preferências).

Se o salário for mesmo praticamente zero. O fato de eles terem preferências heterogeneas só explica eles terem se especializado em jogar Warcraft e não em capinar numa roça, ou martelando pedra em uma mina de carvão.

Se eles tiverem algum prêmio salarial por jogar Warcraft então nem precisa de heterogeneidade. ode ser só skill mesmo. Mas algo tem que ser diferente, quando há especialização.

Só isso. Mas continuo afirmando, alguns povos derivam pouquíssima utilidade do lazer e das condições higiênicas do ambiente que vivem/trabalham e acrescento: mesmo quando o salário aumenta!.

É só você analisar esses povos fora do seu local de origem...

Acho que fica melhor escrever "grupos de pessoas" aou invés de "povos".

Bom, pra mim 100 anos é muito tempo, afinal a escravidão no Brasil acabou a pouco mais de um século...

Abraço e valeu pelo comment!

<b> Cristiano M. Costa </b> disse...

Pra complementar (para todos os leitores):

Eu não quero dizer que as preferências deles sejam boas ou ruins. Só quis dizer que alguns povos gostam de trabalhar mais que os outros, e isso, em economia, costumamos chamar de preferências heterogeneas...

Preferencias ajudam a escolher entre diferente tipos de empregos, se a pessoa vai ficar solteira ou casada, número de filhos, se vai fazer faculdade ou não, etc.

Obviamente, as restrições também são importantes. E aí vai uma crítica teórica. Muitas vezes as spessoas fazem uns modelos que não explicam muito bem em prol de manter a mesma função utilidade para todos os agentes econômicos. Mas muitas vezes as pessoas são heterogeneas e isso explica muita coisa...

Abraço!

Falou!

Leonardo Monasterio disse...

Cristiano,

O arthur Lewis foi o ganhador do Nobel de economia lah nos distantes anos 70. Durante um punhado de decadas era o padrao para entender os mercados de trabalho nos subdesenvolvidos. Saiu de moda, mas eu acho que ainda tem nos manuais bons de desenvolvimento, como o Debraj Ray ou o Todaro.

Sobre as preferencias heterogeneas. Claro que na margem, o carinha que vi pegar o emprego porcao eh mais porcao. O emprego exaustivo serah o mais disposto e assim por diante. O fato fundamental nao estah relacionado com a heterogeneidade das preferencias.
O meu ponto eh que devemos evitar explicacoes que vao rapido demais, cedo demais, para as diferencas nas preferencias, especialmente para as diferencas entre povos . Aih fica facil e eh coisa de sociologo que ve qq fenomeno e diz: "isso eh cultura (ou preferencias, o que daria no mesmo). A gente tem que explicar - sempre que possivel - com precos relativos e restricoes.
A comparação dos imigrantes mostra justamente o quanto as diferencas de preferencias sao irrelevantes. A evidencia , claro, eh anedotica. Tirando um ou outro restaurante chines porcao (são os melhores),eu vi que os caras se adaptam rapidamente aos padroes do loocal de limpeza ou renda/lazer. Afinal, nao tem lah muita diferenca entre um fish & chips de chavs ingleses ou um restaurante etnico da mesma faixa de preco.
Bom, eu jah considero 100 anos mixaria para explicar mudancas nas preferencias.Mas isso pode ser soh o resultado ter ser velho ou ter espirito de velho mesmo.
abracos,

<b> Cristiano M. Costa </b> disse...

Oi Leo,

pois achamos um ponto de divergencia. Lá vai:

Eu penso que diferenças em preferências, religião, cultura, etc, explicam muito em economia.
(por exemplo, intituições são edógenas à tudo isso e todo mundo entende que intituições são importantes)

E acho esse um lado fraco da economia. As pessoas tem medo de fazer hipóteses sobre a função utilidade. Mas, ao mesmo tempo não conseguem explicar muitas coisas.

O que é o fixed-effect em uma regressão, por exemplo? É basicamente uma heterogeneidade. Da onde ela vem? Sei lá, em geral tem um blá, blá, blá explicando.

Acontece que se o cara faz a hipótese na regressão vale, se ele dá um step back e volta nas primitivas do modelo, aaahh aí não pode...

Não acho que restrições e preços relativos sejam mais importantes que preferências. Especialmente em se tratando de oferta de trabalho.

Enfim, são visões diferentes sobre um tema interessante...

Tá boa a discussão!
Abraço!

PS: Vi o seu post sobre a vaga na UFPEL...

Leonardo Monasterio disse...

Cristiano,
O problema eh que comecar a explicar as coisas- de antemao- com cultura, eh como abrir uma caixa de pandora. O risco eh ficarmos parecidos com os sociologos ruins que dizem: "tudo eh cultura", eh um problema cultural".
Eu ainda acho melhor evitar ad-hocismos e explicar tudo com o modelo mais proximo da tradicao economica.
SObre fixed effects, a minha compreensao eh que eles refletem a tua ignorancia das fontes heterogeneidade e o teu interesse estah nas outras variaveis. Enfim, "cultura" eh o limite da ignorancia do economista.
Sobre a tua frase:
"E acho esse um lado fraco da economia. As pessoas tem medo de fazer hipóteses sobre a função utilidade. Mas, ao mesmo tempo não conseguem explicar muitas coisas."
Po, eu acho a economia um programa de pesquisa vitorioso mesmo. Um monte de coisas "culturais" viraram economicas. Um Gary Becker mudou a visao dos problemas, sendo que quando ele primeiro falou de demografia as pessoas riram - riram mesmo!!! - do seu enfoque. Hoje qq um aceita. A historia economica tb se livrou das teses mais culturalistas da revolucao industrial , tipo weber-landes , e agora buscam determinantes economicos. Isso tudo eh uma vitoria da Economia.

SObre o concurso da UFPel. Adianto que serao duas vagas e os aprovados soh precisam ter o titulo de doutor na hora da posse. Seria otimo se vc tivesse interesse e/ou conhecesse alguem interessado.

<b> Cristiano M. Costa </b> disse...

Ok, sim. Eu não quis explicar nada de antemão. Só quiz explicar o porquê de não me surpreender.

Continuando...

Bom, existem várias maneiras de modelar ignorância sobre a fonte da heterogeneidade. Mas já que não se sabe a origem, ela pode ser sim na utilidade. E se eu modelar, por exemplo, uma heterogeneidade não-observável na preferencia por lazer e o meu modelo chegar a um resultado melhor? Por que o meu modelo seria pior?

Os modelos mais simples de moral-hazard tem dois tipos, por exemplo. Modelos econometricos de micro tem heterogeneidade de tudo que é tipo, inclusive não-observável. Até os modelos de macro modernos tem agentes heterogeneos.

Eu concordo que a economia incorporou vários avanços, e inclusive contribuiu para outras áreas como tu citaste. E pode ser uma vitória levar o arcabouço econômico para explicar fenomenos fora da economia. Mas pode ser que não. Talvez as outras ciências possam contribuir para a economia também, ver o caso da psicologia.

Um exemplo rápido. Imagine que tu observas uma hazard rate pro desemprego que é decrescente no tempo. Ou seja, a probabilidade de ficar desempregado aumenta com o tempo do desemprego. Esse modelo pode ser reescrito com dois grupos de agentes com hazard rates constantes, mas uma menor que a outra. Um grupo é pouco persistente, o outro mais. Quando tu agregas, a persistencia deixa de ser constante e passa a ser decrescente. As impplicações em termos de políticas públicas são totalmente diferentes.

Eu não faço apologia indiscriminada do uso de heterogeneidade. Mas, por exemplo. Quando colocam uma dummy de raça na regressão de salários? Aquilo quer dizer que a pessoa de certa raça tem produtividade marginal diferente? Ou é efeito de discriminação? Ou ainda é uma diferença de preferência que se reflete na freqeuncia que as pessoas aceitam ofertas de trabalho?

Se eu não tiver um modelo com uma função de produção que gere uma demanda por trabalho, e um modelo que parta de uma função utilidade e que explique como trabalho é ofertado então eu não consigo diferenciar essas três hipóteses.

Só observo um shift, mas não sei explicar (identificar) da onde ele vem.

Era só esse o ponto. Mas com certeza são metodologias distintas.

Falou!!

PS: vou colocar aqui o link pro teu post da vaga na UFPEL.

Leonardo Monasterio disse...

Cristiano,
Acho que a nossa divergência é muito mais de grau. Eu dou mais valor a navalha de OCcam: um modelo mais simples eh melhor. Se agentes homogêneos e teoria economica tradicional dão conta do recado, eu fico com ela. Enfim, eu abro mao de precisao por simplicidade. Já vc tem uma taxa marginal de substituicao distinta entre os dois criterios.

Ok, empiricamente coloca-se uma variável de cor (eu nao gosto de usar raça pq - como vc sabe - isso não existe em termos biológicos para hunanos) pq ela captura um monte da variação que eu não sei de onde vem. Mas seria absurdo fazer modelar para individuos com cores distintas, né?

Abracos,
Leo.

<b> Cristiano M. Costa </b> disse...

Eu também prefiro cor, mas aqui eles chamam de race mesmo...

Bem, você não precisa modelar indivíduos de cores distintas. Você modela indivíduos com tipos distintos. Por exemplo, com diferentes custo de oportunidade de lazer. Depois, você usa regra de Bayes e vê qual a probabilidade de o indivíduo ser de um determinado tipo dado que ele é amarelo, por exemplo. Se a distribuição de tipos variar com a cor, então na verdade a cor estava capturando essa heterogeneidade na preferencia. Caso contrário, meu modelo está errado, e eu jogo fora o modelo e começo de novo...

A diferenca entre os modelos é que quando voce modela as primitivas voce sabe mais sobre os resultados e como as escolhas sao feitas. Em contrapartida, é claro, voce está fazendo mais hipóteses. Isso, é um custo...

Mas gostei dessa idéia de taxa marginal de substituicao....heheh

FaloU!