Um dos tópicos mais debatidos no meio acadêmico é a relação entre desigualdade de renda e criminalidade. Em qualquer modelo simples de criminalidade a escolha da entrada na atividade criminal está relacionada ao benefício esperado da atividade e ao custo de oportunidade. A teoria funciona melhor com crimes de propriedade, onde o retorno monetário é mais líquido e fácil de calcular. Então quando eu me referir ao crime, tenho em mente crimes de propriedade (furtos de veículos, carteira, jóias, etc.).
A idéia básica é muito simples, quanto maior o
valor esperado do roubo maior será a taxa de criminalidade. Do mesmo modo, quanto menor o
custo de oportunidade (renda advinda de atividades legais), mais atrativo será o mundo do crime.
A desigualdade de renda tende a aumentar a criminalidade nestes modelos.
Suponha uma economia com 10 indivíduos em que todos tem riqueza igual a 10 tokens e salário igual a 2 tokens, resultando em uma folha salarial de 20 tokens. Assumindo que salários não podem ser roubados, somente o capital, o total disponível para furto é de 100 tokens (10 x 10). Agora supunha que ao entrar no mundo do crime o retorno esperado do furto seja igual a 0.7% da riqueza total da economia (=0.7 tokens). Se o indíviduo vira criminoso, ele deixa de receber 2 tokens de salário e receberia 0.7 tokens pelo crime. Logo o crime não compensa.
Agora vamos mudar a distribuição de renda. Suponha que dos 10 indivíduos, 6 tenham salário de 2.5 tokens, 2 indivíduos têm salário de 2 tokens e 2 indivíduos têm salário de 0.5 tokens. De modo que o total da folha salarial continua sendo 20 tokens. Agora, o retorno esperado da atividade criminal (=0.7 tokens) para os 2 indivíduos que recebem 0.5 tokens é maior que o custo de oportunidade, logo o crime compensa. Resultando em uma taxa de criminalidade de 20%, para uma sociedade em que os 10% mais ricos ganham 5 vezes a renda dos mais pobres.
Esse exemplo é muito simples, é óbvio. Mas, ajuda a entender uma causa econômica para a criminalidade.
Este post foi inspirado em em um
post do
The Duke of Hazard, que postou esta notícia
AQUI. A notícia aponta a redução da desigualdade de renda. O dado deveria implicar uma redução dos crimes de propriedade (o modelo não funciona muito bem para homicídios, crimes de trânsito, etc., apesar de o princípio ser o mesmo).
Acontece que se, juntamente com a diminuição da desigualdade renda, a riqueza total da economia aumentar, o efeito pode ser o oposto.
No exemplo acima, imagine que a distribuição agora é a seguinte:
7 tenham salário de 2.537 tokens e 3 indivíduos recebam salário de 0.75 tokens. De modo que o total da folha salarial continua sendo 20 tokens. Essa sociedade é menos desigual que a anterior, os 10% mais ricos ganham só 3.37 vezes o que ganham os 10% mais pobres. Se a riqueza total for 100, o retorno do crime é menor que o salário para todos os indivíduos, logo a criminalidade é zero, ao invés de 20%.
Se a riqueza da sociedade for 300, o retorno esperado do crime passa a ser 2.1 tokens (0,7% x 300). Logo, 3 indivíduos concluiriam que a atividade criminal é uma boa alternativa, levando a uma taxa de criminalidade de 30% > 20 %. Logo, o aumento da riqueza agregada vai na direção contrária da redução da desigualdade na luta contra o crime. Note que o aumento da riqueza se dá sem o aumento do produto (=folha salarial, no exemplo). Obviamente, se o aumento salarial for proporcional ao da riqueza, o efeito se anula.
Este post também foi inspirado nesta notícia
AQUI, e em um trabalho do professor Antônio Merlo. O link fica
AQUI. O trabalho mostra que se a desigualdade não tivesse aumentado nos EUA, a redução da criminalidade teria sido ainda maior.
No Brasil, quando há aumento da riqueza agregada, mesmo havendo redução da desigualdade de renda, o efeito pode ser perverso. Pois, para muitos, o valor esperado do roubo aumenta tanto que passa a compensar o ganho de renda.
No quadro da
Folha por exemplo, o primeiro decil de renda teve ganhos de 21,96% entre 2007 e 2003. Enquanto no decil mais alto o ganho foi de 4,91%. Se a renda do mais baixo era 100 e a do mais alto 1.000. O mais pobre agora ganha 121 e o mais rico ganha 1040. Se o mais rico possuía um carro que valia 90 e usa os 40 adicionais para comprar um que vale 130, pode passar a valer a pena para o indivíduo no primeiro decil roubar o carro e ganhar 130 ao invés de 121. Apesar da redução da desigualdade, a criminalidade aumenta. e note que antes o roubo não valia a pena, já que o valor do carro era 90 e o salário 100.
PS1: Eu sei que no início contei como se o indivíduo roubasse a própria riqueza, mas a essência do resultado não muda. Em uma sociedade com N indivíduos, posso pensar na riqueza como a riqueza dos N-1 indivíduos.
PS2: Sei também que em um modelo com múltiplos períodos os custos de oportunidade aumentam. Seriam o valor presente descontado das rendas futuras, etc. Mas o princípio é o mesmo.